Liderança do povo Baniwa falou sobre as tecnologias de cuidado nos territórios indígenas em palestra nesta segunda-feira (13)
Diálogo intersaberes, valorização das ciências indígenas, de suas tecnologias e educação. Mais do que um direito: a garantia do bem viver e do viver bem e a interrupção da violência e do preconceito, que ainda são elementos fundamentais do processo de dominação da colonização de tomada e domínio de terras.
Refletindo sobre essas temáticas, nesta segunda-feira (13), a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), por meio da Diretoria de Formação Profissional e Inovação (Difor), deu início ao Curso de Especialização em Educação Intercultural em Saúde e Antropologia.
A aula inaugural contou com a participação de André Baniwa, liderança do povo Baniwa (Alto Rio Negro, AM) desde 1992. Empreendedor social reconhecido desde 2021, Baniwa é escritor, agrozootecnista, gestor ambiental e mestrando em Sustentabilidade Profissional junto a Povos e Territórios Tradicionais na Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, ele atua no Ministério da Saúde.
“A Fundaj é uma instituição comprometida historicamente com a pesquisa, a formação crítica e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à diversidade sociocultural do nosso país. Desejo uma jornada de construção coletiva pois esse é um espaço de convite ao diálogo, à escuta, ao aprendizado mútuo e à diversidade de trajetórias que, com certeza, é uma das maiores riquezas do curso”, celebrou a diretora de Formação Profissional e Inovação, Ana Sousa Abranches, que representou a presidenta da Fundaj, Márcia Angela Aguiar.
O bate-papo foi transmitido online, pelo canal do YouTube da Fundaj, e mediado pelo Prof. Dr. Renato Athias, coordenador do curso, que reforçou a importância de debate e reflexão acerca do tema.
André Baniwa traçou um perfil histórico de populações indígenas no Brasil, abordando as violências históricas e contemporâneas vividas por elas durante 5 séculos, além de falar sobre a destruição e a reconstrução do bem viver dos povos.
Baniwa também citou as tecnologias de cuidado nos territórios indígenas, desde as de alimento e culinária, que refletem a soberania alimentar, às de cuidado em medicinas indígenas e de arquitetura.
“No imaginário da sociedade, como foi tão desvalorizada ou condenada, parece que o conhecimento dos especialistas das medicinas indígenas não serve. Quando se referem ao pajé, parece que ele nunca teve formação, nunca recebeu equipamento ou usou tecnologia, mas existe essa formação de guardiões do conhecimento”, explicou.
O escritor também refletiu sobre a importância do fortalecimento interno do conhecimento para dialogar com o conhecimento não-indígena e dos territórios demarcados como indicador contemporâneo do bem viver dos povos. Ele pontuou que as ciências indígenas são “difíceis de morrer enquanto um povo estiver vivo porque elas são organização e sistemas”.
“Medicinas indígenas e guardiões destes conhecimentos e sistemas originários e ancestrais dos povos indígenas são fundamentais para sua proteção e cura dos corpos-territórios e bem viver que foram interrompidos pela colonização e hoje estão em reconstrução como política adequada, específica e especializada”, finalizou.
A iniciativa reafirma o compromisso da Escola de Governo da Fundaj com o diálogo, a reflexão crítica, a produção do conhecimento e o comprometimento com a transformação social.
Com duração de 18 meses, a especialização acontece de forma remota e totaliza 360 horas de carga horária. Entre as disciplinas ofertadas estão Etnicidade e Interculturalidade, Antropologia da Saúde e Interculturalidade, Educação Intercultural no Contexto da Saúde e Perspectivas Cosmológicas sobre a Cura e a Doença.
A formação busca preparar agentes públicos para entender as necessidades de grupos como indígenas, quilombolas, assentados, migrantes, refugiados e a comunidade LGBTQIA+, e aprimorar o atendimento nos serviços de saúde.
