Artigos desvelam aspectos psicossociais do trabalho
Publicados pela Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, textos podem contribuir para debate e transformação social Compartilhe: Compartilhe por Facebook Compartilhe por Twitter Compartilhe por LinkedIn Compartilhe por WhatsApp link para Copiar para área de transferência
Publicado em
14/07/2025 15h13
Atualizado em 14/07/2025 15h26
Os aspectos psicossociais do trabalho têm ganhado cada vez mais visibilidade, e artigos publicados pela Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO) podem contribuir para um debate crítico que leve à transformação social. Dados do Ministério da Previdência mostram a relevância do tema ao apontar 472 mil benefícios por transtornos mentais em 2024. Apenas 9.827 desses casos foram reconhecidos como do trabalho, o que evidencia como a relação com o mundo laboral é ocultada.
Além disso, essa pauta entrou para a agenda das empresas com a inclusão dos fatores de risco psicossociais no ambiente de trabalho como parte do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais da Norma Regulamentadora n° 1, que trata das disposições Gerais e do GRO. Atualmente em caráter educativo e orientativo, essa inclusão será exigida a partir de 26 de maio de 2026, quando o não cumprimento será passível de autuação da Inspeção Fiscal do Trabalho.
Dois textos trazem visões críticas, que ilustram a contribuição do mundo da pesquisa para esse debate. O artigo de revisão Avaliação dos aspectos psicossociais do trabalho no Brasil no contexto da saúde do trabalhador: uma revisão de escopo possibilita um aprofundamento sobre o tema ao abordar as publicações científicas e documentos governamentais de 2017 a 2021.
Já o artigo de pesquisa Processo de trabalho e relação saúde-doença na percepção de operadores de telemarketing: apontamentos para a atuação da Vigilância em Saúde do Trabalhador mostra o real do trabalho a partir do ponto de vista dos trabalhadores, e o sofrimento psíquico é um dos problemas relatados.
Aspectos psicossociais
Para descrever as dimensões da avaliação dos aspectos psicossociais do trabalho (APST), o artigo de revisão da RBSO traz análise de 58 artigos, a partir de busca no portal Biblioteca Virtual em Saúde do Brasil e nas bases Web of Science e Medline, e 22 documentos governamentais. As publicações abrangem o período de 2017 a 2021.
O estudo buscou responder: “Como tem sido compreendida, orientada e realizada a avaliação dos aspectos psicossociais do trabalho no Brasil?”. As autoras optaram por usar o termo “aspectos psicossociais do trabalho (APST)”, que se aproxima da definição oferecida pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) e tenta minimizar os efeitos da confusão conceitual entre “risco” e “fator de risco”.
Dos 58 artigos científicos selecionados, o delineamento é quantitativo em 45 (75,9%) estudos, qualitativo em dez e misto em três. Cerca de dois terços dos estudos (31) realizaram avaliações dos APST na área de saúde, dos quais 20 ocorreram no contexto da assistência hospitalar. A principal categoria de trabalhadores estudada foi de profissionais de enfermagem, constando com exclusividade em 16 estudos.
As teorias de estresse ocupacional prevalecem nos estudos de delineamento quantitativo (31). Os principais referenciais teóricos nas pesquisas qualitativas e mistas são as teorias de estresse ocupacional (4) e a Psicodinâmica do Trabalho (4), e a entrevista semiestruturada é o método de coleta de dados mais utilizado (12).
Já 63,6% dos documentos governamentais são materiais de suporte técnico, a maioria voltada para saúde do trabalhador e vigilância. De um total de 22 documentos, oito foram classificados como referência legal ou normativa. A Ergonomia da Atividade e Psicodinâmica do Trabalho são as principais referências teóricas.
"A análise da literatura levantada nesta revisão aponta para a escassez conceitual acerca dos APST, observada tanto nos artigos científicos quanto nos documentos governamentais", apontam as autoras.
"De maneira geral, a avaliação dos APST tem sido orientada, principalmente, para a associação com desfechos de saúde, tanto no cenário acadêmico quanto no contexto normativo e de ST/Visatt [Vigilância em Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora]. O burnout tem sido um importante foco de pesquisas científicas, enquanto a avaliação dos agravos à saúde para estabelecimento de nexo causal e ações de Visatt prevalecem nos documentos governamentais", concluem.
Olhar dos trabalhadores de telemarketing
O outro artigo busca analisar o processo de trabalho e a relação saúde-doença na percepção dos operadores de telemarketing por meio de pesquisa qualitativa com a Psicodinâmica do Trabalho como referencial teórico. As entrevistas, com roteiro semiestruturado contendo o Questionário de Saúde de Atividades do Trabalho em Serviços (QSATS), foram interpretadas conforme análise de conteúdo.
O estudo contou com 40 participantes operadores de telemarketing de quatro empresas de call center localizadas em um município do estado do Piauí. A maioria era do sexo feminino (65,0%), faixa etária média de 27 anos, ensino superior em curso (47,5%), com tempo de atuação na atividade entre um e três anos (50,0%).
As pessoas entrevistadas relataram exposição a riscos ergonômicos e presença de sinais e sintomas relacionados ao comprometimento da voz e da audição, ao sofrimento psíquico e alterações do sono. Elas vivenciam rotina de protocolos a serem seguidos, metas, controle rígido do tempo, insatisfação com o ritmo de trabalho e dificuldades em conciliá-lo com demais atividades da vida pessoal.
A questão das violências do trabalho também apareceu na pesquisa. "A prática do assédio moral, assim como a exposição a formas de violência ou intimidação, em empresas de telemarketing, causa sérios problemas ao trabalhador que é vítima, levando ao adoecimento e, muitas vezes, impossibilitando seu retorno ao mercado de trabalho", avaliam as autoras. Nesses casos, as ações da Vigilância em Saúde do Trabalhador (Visat) são importantes para notificação.
"Os resultados obtidos forneceram subsídios para a elaboração de um plano de ação com a finalidade de desenvolver estratégias que minimizassem as fontes de adoecimento, incluindo os riscos, exposições, danos e suas consequências à saúde do trabalhador", explicam as autoras. “Intervenções visando a qualificação das equipes de saúde das empresas, reuniões com supervisores, grupos de apoio com os trabalhadores, campanhas de integração e inspeções nos locais de trabalho puderam ser desenvolvidas, inicialmente, em âmbito local”, concluem.
Saiba mais
Leia os artigos na íntegra:
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Texto:
Cristiane Oliveira Reimberg
Categoria Saúde e Vigilância Sanitária
Tags: #AspectosPsicossociais#RiscosPsicossociais#Artigos#RBSO#PeriódicoCientífico#SaúdeDoTrabalhador


