Artigos discutem uso equivocado de inferências estatísticas em Epidemiologia
Prática que resulta em interpretações de dados errôneas também é observada entre profissionais da saúde de outros campos Compartilhe: Compartilhe por Facebook Compartilhe por Twitter Compartilhe por LinkedIn Compartilhe por WhatsApp link para Copiar para área de transferência
Publicado em
26/08/2025 14h09
Métodos estatísticos são ferramentas importantes em estudos epidemiológicos e de outras áreas da saúde para verificar se uma variação amostral pode ou não ser fonte de erro nos resultados. No entanto, é frequente a dificuldade de profissionais em aplicá-la de forma correta, o que provoca interpretações equivocadas de dados. Duas publicações do volume 50 da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO) abordam a questão dialogando entre si.
Em um ensaio, os autores refletem sobre o uso da inferência estatística sem que se verifiquem seus pressupostos e apontam os problemas decorrentes. O comentário ao ensaio concorda com as reflexões e amplia o leque para profissionais da saúde fora do campo epidemiológico.
Estatística na Epidemiologia
O uso da inferência estatística sem que se verifiquem os critérios necessários para sua aplicação é uma prática questionável para analisar dados epidemiológicos. Incorporada por pesquisadores, divulgação científica, revisão por pares e periódicos, pode resultar em interpretações distorcidas de dados de pesquisas que usam esses procedimentos. É o que argumentam Rita de Cássia Pereira Fernandes, Fernando Martins Carvalho e Verônica Maria Cadena Lima, docentes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em O uso crítico da inferência estatística na epidemiologia ocupacional: ensaio.
Os autores discutem situações comuns em que esse uso ocorre. Entre elas, a afirmação de alguns epidemiologistas de que a ausência da inferência estatística inviabiliza avaliar diferenças entre subgrupos estudados ou invalida o artigo, tornando-o não publicável. Abordam também a realização de ensaios clínicos randomizados que desconsideram as especificidades desses parâmetros estatísticos.
Outro ponto é a importância de se escolher a correta abordagem estatística - descritiva, analítica e inferencial - em acordo com o objetivo e a natureza do estudo. “Assinala-se a relevância de assumir que um estudo é analítico quando se investiga associação entre variáveis e não porque faz uso de IE [inferência estatística]. Essa distinção é imprescindível e oportuna para a crítica necessária ao uso da IE”, destacam.
O ensaio também traz reflexões sobre precisão ou confiabilidade, validade e vieses de estudo e interpretações de intervalos de confiança para concluir pelo resultado estatisticamente significante ou não. Por fim, os autores questionam o uso de inferência estatística ou testes de hipóteses em amostras não probabilísticas e censos, uma vez que podem gerar resultados equivocados. “É necessário que o epidemiologista registre possíveis limitações, adotando a necessária parcimônia na interpretação dos seus achados e o impacto do uso da IE nessas situações”, concluem.
Estatística além da Epidemiologia
Em Comentário sobre: “O uso crítico da inferência estatística na epidemiologia ocupacional: ensaio”, o autor Dário Consoni destaca a importante contribuição do ensaio também para profissionais da saúde fora do campo epidemiológico. A partir de sua experiência hospitalar com médicos, enfermeiros, biólogos, e considerando outros pontos relevantes do ensaio para além da estatística inferencial, observa ser comum concepções errôneas em torno da estatística.
“Observei que existem muitas dúvidas sobre fatores de confusão fora do campo epidemiológico. Em primeiro lugar, um mito comum é que qualquer ‘terceira variável’ (além da exposição e do efeito) é um fator de confusão a ser ajustado com análises multivariáveis; [...] Em segundo lugar, muitos ainda pensam, incorretamente, que os possíveis fatores de confusão são as variáveis que foram ‘estatisticamente significativas’ na análise univariada, quando, na verdade, deve-se usar outras ferramentas não estatísticas”, analisa.
Entre as questões pontudas, cita e exemplifica a representatividade de uma amostra, que pode ou não ser necessária a depender do objetivo do estudo. Reforça a discussão sobre validade de estudo, usada para avaliar a ausência de erros sistemáticos ou vieses importantes e que constitui pré-requisito fundamental ao bom estudo epidemiológico. Ainda anuindo com as reflexões do ensaio, observa as dificuldades em torno da precisão e da significância estatística.
O autor frisa a necessária mudança na forma como se ensina, usa e interpreta a estatística e conclui oferecendo algumas recomendações àqueles que pretendem enviar manuscritos a periódicos científicos.
Saiba mais
Leia as duas publicações na íntegra:
O uso crítico da inferência estatística na epidemiologia ocupacional: ensaio
Comentário sobre: “O uso crítico da inferência estatística na epidemiologia ocupacional: ensaio”
Leia os demais artigos do volume 50.
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Texto:
Karina Penariol Sanches
Imagem:
Criada por IA no banco de imagens Freepik
Categoria Saúde e Vigilância Sanitária
Tags: #RBSO#SaúdeDoTrabalhador#Epidemiologia#Estatística#SST


