No dia 10 de março, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) promoveu um encontro para debater, refletir e conhecer trabalhos, dificuldades e conquistas das mulheres no campo científico.
Com o nome “Mulheres na Ciência: trajetórias e desafios”, o evento foi dividido em dois momentos. Pela manhã, 42 alunas do Colégio Alfredo Neves, de Nova Iguaçu, visitaram laboratórios e conversaram com pesquisadoras – de servidoras a alunas da pós-graduação – sobre áreas como inteligência artificial, física quântica, nanotecnologia, cosmologia e impressão 3D.
Alunas durante visita a laboratório - Crédito: NCS/CBPF
As alunas fazem parte do projeto Tem Menina no Circuito, iniciativa que busca incentivar o interesse de meninas pela ciência e promover valores como equidade, acesso à educação e letramento científico. Durante a visita, tiveram a oportunidade de conhecer laboratórios do instituto, dialogar diretamente com pesquisadoras sobre suas trajetórias, desafios e escolhas profissionais.
O percurso foi marcado por trocas de experiências e acolhimento. As alunas compartilharam dúvidas, expectativas e impressões sobre o universo científico. Para Mariana Silva de Castro, a experiência foi incrível: “Fiquei muito animada com cada pedacinho. A parte que eu mais amei foi a do maquinário. Fiquei muito interessada para saber como se constrói cada um deles, passo a passo. É uma coisa que, com certeza, eu trabalharia”.
Já Cristiny Vitória Inácio destacou o impacto da visita em seus planos futuros: “Eu já estou há um bom tempo interessada neste tipo de área. Estar aqui só reforçou mais minha vontade de estudar o que eu quero estudar, que é a astrofísica”, afirma.
Dados históricos e a luta por equidade
À tarde, a programação reuniu pesquisadoras e profissionais de diferentes áreas para discutir a presença feminina na ciência e os desafios ainda existentes. A programação começou com palestra dedicada à discussão sobre a invisibilização de mulheres cientistas no Brasil e no mundo proferida pela pesquisadora do CBPF, Gabriela Marques.
Sua apresentação destacou dados que evidenciam desigualdades de gênero na ciência, como o “Efeito Tesoura” – constante redução da presença feminina ao longo da carreira científica – e o “Efeito Matilda” – referente ao padrão histórico em que contribuições científicas feitas por mulheres são subestimadas, atribuídas a colegas homens ou simplesmente apagadas da narrativa científica.
“Por trás dessas estatísticas existe algo mais profundo: uma estrutura histórica de desigualdade que atravessa o mundo do trabalho e a sociedade como um todo. É dentro dessa estrutura que as trajetórias de mulheres na ciênciatambém acontecem. Assim, discutir mulheres na ciência não é apenas falar de representatividade, mas de quem pode ocupar espaços de poder, quem é reconhecido e, em alguns casos, quem consegue simplesmente existir com segurança nesses espaços”, destaca a pesquisadora.
Consciência, diversidade e caminhos de atuação
Após, houve a apresentação, em formato de cordel, da trajetória da matemática Maria Laura Mouzinho e uma mesa-redonda debateu experiências pessoais e profissionais – desafios enfrentados, aprendizados e conquistas – em um diálogo voltado também para inspirar e fortalecer novas gerações de cientistas.
A mesa foi composta por Isa Assef dos Santos, Subsecretária de Pesquisa e Organizações Sociais, e Andrea Latgé, Secretária de Políticas e Programas Estratégicos, ambas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Suzana Peripolli, professora e coordenadora do Programa Futuras Cientistas na UERJ, e Gabriela Reznik, pesquisadora de divulgação científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Em sua fala, Andrea Latgé abordou sua vida pessoal e profissional. Física, com pesquisa na área de matéria condensada e sistemas de grafeno, a Secretária falou sobre as escolhas que se impõem a mulheres no decorrer de sua formação profissional:
Andrea Latgé durante o evento - Crédito: NCS/CBPF
“Os estereótipos de gênero nas áreas STEM (sigla em inglês para Science, Technology, Engineering and Maths – ciência, tecnologia, engenharia e matemática) são enormes, porque são áreas ainda vistas como masculinas. Professores e pais, muitas vezes, subestimam as habilidades matemáticas das meninas desde a pré-escola”.
Andrea, que também é professora da Universidade Federal Fluminense, apontou que como menos mulheres estudam e trabalham em STEM, essas áreas tendem a perpetuar culturas inflexíveis, excludentes e dominadas pelos homens que não apoiam ou não atraem mulheres e minorias: “as meninas têm menos modelos de comportamento para inspirar seu interesse nessas áreas, vendo exemplos limitados de mulheres cientistas e engenheiras em livros, mídia e cultura popular. Há ainda menos modelos de mulheres negras em matemática e ciências”.
Além da contextualização, apresentou dados e ações realizadas pelo Ministério para o aumento da inclusão promoção e permanência de meninas e mulheres na ciência, tecnologia e inovação, como o Edital do CNPq “Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação”.
Essa pauta também foi contemplada na fala de Isa Assef, que falou de seus 40 anos de experiência na área de ciência e tecnologia – foi presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação e diretora-presidente da Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica , instituição voltada para pesquisas e incremento à competitividade de empresas e organizações na região amazônica: “Trabalhamos para fortalecer a estrutura de ciência e tecnologia e garantir que os espaços estejam abertos para todos”.
Fala de Isa Assef durante o evento - Crédito: NCS/CBPF
Ações para inclusão
Já Suzana Peripolli narrou seu caminho profissional – da saída de uma cidade pequena do Rio Grande do Sul, passando pela graduação em matemática, suas experiências profissionais até as pesquisas internacionais em física e o trabalho como professora do Departamento de Engenharia Mecânica da UERJ.
Coordenadora do Laboratório Multiusuário de Nanofabricação e Caracterização de Nanomateriais (Nanofab), Suzana recebeu o Prêmio Capes Futuras Cientistas 2025, na Categoria Tutoras, com o projeto “As Futuras Cientistas e os materiais macro, micro e nano na Engenharia Mecânica da UERJ”. A premiação, promovida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pelo Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), tem o objetivo de estimular a participação feminina nos espaços de desenvolvimento científico.
Ela reafirmou a importância do trabalho de ajudar a promover a entrada de meninas e mulheres na área de STEM: “São poucas mulheres atuando nas Engenharias. Na Mecânica, o número é ainda menor. O Futuras Cientistas, por exemplo, é um projeto de mudança de vida para as meninas. Elas conhecem uma universidade pública, equipamentos de ponta, laboratórios de pesquisa, o que expande horizontes com a possibilidade de estudar, ter independência financeira e promover melhorias pessoais e também para a família”, explica Suzana.
Gabriela Reznik, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Público e Avaliação em Museus (Nepam) e coordenadora adjunta do Programa de Pós-Graduação em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde da Fiocruz, enfatizou fatores que afetam a participação feminina nas ciências, trazendo contribuições de perspectivas feministas de autoras como bell hooks, Sueli Carneiro, Sandra Harding, Donna Haraway, Yuderkys Miñoso e Grada Kilomba.
O estereótipo de gênero na infância, a educação científica diferenciada, a divisão sexual do trabalho doméstico, a maternidade, a representatividade nas mídias e nas artes ajudam a reafirmar estereótipos de cientistas e femininos que não necessariamente coincidem.
Para Resnik, a falta de diversidade nos espaços científicos é uma realidade na maioria dos países: “Ao longo da formação escolar e acadêmica, há uma perda preferencial de pessoas que não se encaixam na imagem “típica” de cientista. Entra em ação o viés implícito, mais comum do que o preconceito explícito até. Várias pesquisas indicam que a presença de estereótipos implícitos de gênero, associando características de maior brilhantismo e inteligência ao gênero masculino, é uma construção social que se inicia cedo, já nas crianças. Todas nós somos, assim, afetadas pelas estruturas sociais que moldam nossa percepção”.
Andrea Latgé, Suzana Peripolli, Gabriela Reznik e Gabriela Marques - Crédito: NCS/CBPF
Ela explicou que os estereótipos de cientista impactam no senso de pertencimento e na formação de uma identidade científica, assim, torna-se necessário alterar as narrativas sobre quem pode ser cientista. Nesse contexto, a divulgação científica pode ajudar a reforçar protagonismo feminino, principalmente o adotar as Práticas equitativas fundamentais: Reconhecer, Rever e Reformular, Co-criar, Reivindicar, Desafiar e alterar Narrativas tradicionais, Estar de forma crítica com, Abraçar a Humanidade e Partilhar a Autoridade.
“Com certeza, a divulgação científica pode reforçar o protagonismo de meninas e mulheres na produção de ciência e em todos os campos de conhecimento, e afetar positivamente a opinião pública”.
Reznik finalizou ressaltando que ações e iniciativas como Tem Menina no Circuito, Meninas e Mulheres na Redução de Riscos e Desastres (RRD), Meninas nas Exatas de Duque de Caxias, Projeto Meninas e Mulheres na Ciência, ao reconhecerem o protagonismo da juventude, apontam para a importância e a necessidade “de todas olharem para quem são, quem podem ser, em vez de quem deveriam ser”.
O evento foi o primeiro de outros que virão para reafirmar o compromisso do Centro com a construção de um ambiente científico mais diverso, plural e representativo, onde fortalecer o diálogo entre diferentes trajetórias contribui para a formação de novas gerações de cientistas.


