Nos dias 2 e 3 de junho, uma equipe do Cemaden Educação participou do encontro “Protocolos e Práticas para a Educação Socioambiental em Cenários de Eventos Extremos”. O evento marcou a inauguração do Centro de Educação e Cooperação Socioambiental do Estado de São Paulo (CECSA-SP) e foi organizado pelo próprio CECSA, Ministério do Meio Ambiente (por meio da Diretoria de Educação Ambiental), Cemaden Educação, Universidade Zumbi dos Palmares e Instituto Allma – com o apoio institucional do Sesc São Paulo, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental de São Paulo (CIEA/SP). A iniciativa, que integrou a agenda do Junho Verde e celebrou o Dia Nacional da Educação Ambiental (3 de junho), parte da premissa de que a integração entre diferentes saberes (acadêmicos, institucionais e comunitários) contribui para preparar populações vulnerabilizadas e construir caminhos práticos de ação diante da emergência climática. O primeiro dia de atividades ocorreu na Universidade Zumbi dos Palmares, enquanto o segundo dia foi realizado no Sesc 24 de Maio.
Na abertura do encontro, o Ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), João Paulo Capobianco, e o diretor de Educação Ambiental e Cidadania do MMA, Marcos Sorrentino, marcaram presença – além de representantes das instituições parceiras. O Cemaden Educação foi responsável pela curadoria técnico-científica e orientação metodológica das atividades. A coordenadora do programa, Rachel Trajber, participou do painel “A atuação institucional: experiências no enfrentamento climático”, que tratou da convergência entre o monitoramento científico, os saberes tradicionais e as políticas de preservação na construção de territórios resilientes.
A coordenadora do Cemaden Educação, Rachel Trajber, participou do Painel 1, sobre a convergência entre diferentes saberes e políticas na construção de territórios resilientes.
A tarde do primeiro dia de evento foi dedicada às discussões dos cinco grupos de trabalho (GTs), com o objetivo de construírem protocolos de prevenção a partir das quatro dimensões do Sistema de Alerta Centrado na Educação (conhecimento dos riscos, monitoramento e alertas, difusão e comunicação, capacidade de resposta). Cada grupo pautou suas discussões em três âmbitos da educação ambiental (escola, comunidade e gestão) e três momentos (antes, durante e depois dos eventos extremos). A coordenação e a sistematização dos resultados dos GTs foram realizadas pelo Cemaden Educação, com pesquisadores e tecnologistas do Cemaden atuando na mediação. Para Rachel Trajber, a oficina foi uma oportunidade de tornar o momento mais propositivo. "Fomos convidados pelo Ministério do Meio Ambiente para ministrar uma palestra, e ela se transformou nessa oficina, que foi muito mais participativa. Propusemos que se pensasse como escolas, comunidades e gestores devem se relacionar com os eventos extremos, e como a educação participativa pode contribuir", destacou a coordenadora do Cemaden Educação.
No GT 1, com enfoque em deslizamentos de terra, as ações anteriores aos eventos extremos incluem o mapeamento participativo e cartografia social e afetiva, além de ações de preparação estrutural como a criação do "Cemaden microlocal" nas escolas, a formação de Núcleos de Proteção e Defesa Civil (Nupdecs) e de comitês participativos. Durante os eventos extremos, destacam-se as redes de observação comunitária, os serviços de acolhimento e o envolvimento de jovens como multiplicadores. Já no momento posterior aos desastres, o GT elencou o registro de memórias, a ressignificação do trauma e o fortalecimento de uma cultura de prevenção como ações fundamentais.
Grupo de trabalho 1 contou com a contribuição de Rejane Lucena (tecnologista do Cemaden) na coordenação e abordou discussões relativas a protocolos para deslizamentos de terra.
Já o GT 2, voltado para alagamentos, enxurradas e inundações, baseia o conhecimento prévio no mapeamento do território com dados do Cemaden e Defesa Civil (entre outras fontes), de modo a promover o conhecimento das áreas de risco, rotas de fuga e pontos de referência. Considerando o caráter dinâmico desses eventos relacionados ao excesso de água, é importante verificar, continuamente, se as rotas de fuga e os locais de abrigo continuam seguros. A comunicação com as populações suscetíveis precisa ser clara e acessível e realizada por meios como caixas de som e placas de sinalização, de modo que as pessoas saibam o que fazer durante as ocorrências. As ações de resposta envolvem o registro e acompanhamento de pessoas afetadas e dos danos sofridos, avaliação das ações adotadas e aprimoramento dos protocolos.
Com a participação de Allan Iwama (pesquisador do Cemaden) e Priscilla Françoso (pesquisadora colaboradora do Cemaden Educação) na coordenação, o GT 2 tratou de desastres associados a alagamentos, enxurradas e inundações.
Para o cenário de incêndios (GT 3), a etapa inicial contempla mapeamento participativo, Planos de Manejo Integrado do Fogo, Soluções Baseadas na Natureza, formação de professores e brigadistas e divulgação de ações preventivas. Durante as ocorrências, é necessário o monitoramento contínuo do local atingido, a divulgação dos incidentes para populações e autoridades e o acionamento de pessoas treinadas para o combate ao fogo. A restauração ambiental posterior também conta com Soluções Baseadas na Natureza, enquanto o GT recomenda, ainda, o apoio à saúde física e psicológica dos afetados e a responsabilização dos causadores dos incêndios.
No GT 4, que tratou de secas, indicadores naturais como nível de rios, ocorrência de chuvas e umidade do ar devem ser continuamente monitorados. A manutenção de nascentes e o mapeamento participativo das vulnerabilidades são ações preventivas que se valem dos saberes locais, além das tecnologias sociais como cisternas e banheiros secos. O grupo de trabalho considerou que o conhecimento científico deve ser comunicado de maneira simples e contextualizada, como parte do cenário mais amplo de mudanças climáticas. Em contexto de escassez hídrica, o fortalecimento de coletivos escolares e movimentos sociais caminha em paralelo à identificação de conflitos decorrentes da carência de água. Numa perspectiva antirracista, os participantes do GT destacaram que o perfil racial das populações mais atingidas pela seca é bastante específico e recomendaram que os grupos vulnerabilizados sejam agentes de comunicação, não apenas receptores.
Por fim, o GT 5, sobre altas temperaturas e ondas de calor, sugere a utilização de memórias orais e ciência cidadã para a construção do conhecimento prévio aos eventos climáticos. Ações como hortas para crianças, melhorias em escolas, planos de contingência e disseminação de conhecimento sobre alimentação e conforto térmico são outras recomendações, sempre pautadas pelo respeito à cultura ecológica. Durante e depois dos eventos extremos, as ações propostas incluem o mapeamento de ilhas de calor (não apenas com dados científicos, mas a partir das percepções das pessoas), o envio de alertas por diferentes meios, a criação de espaços de resfriamento urbano, a adaptação de protocolos internacionais à realidade brasileira e a promoção da saúde humana, animal e ambiental.
Dedicado ao desenvolvimento de protocolos para altas temperaturas e ondas de calos, o GT 5 foi coordenado por Christopher Cunningham, Demerval Gomes (do Cemaden) e Carolina Esteves (pesquisadora colaboradora do Cemaden Educação).
Apesar das naturezas distintas de cada evento extremo, o encontro revelou pontos comuns a todos os protocolos elaborados. A participação comunitária, com protagonismo de atores locais do mapeamento à avaliação posterior aos eventos extremos, apareceu como elemento fundamental. Outro ponto transversal é a inclusão e equidade, com a demanda por comunicação acessível para grupos vulnerabilizados e uma perspectiva antirracista consolidada. A valorização da memória e da cultura também é unânime, por meio do recurso à arte, contação de histórias e memória oral para a prevenção e ressignificação de traumas. Ademais, a integração permanente entre escolas, redes de saúde, poder público e sociedade civil para a construção de comunidades verdadeiramente resilientes (intersetorialidade) foi elemento indispensável nas discussões dos grupos de trabalho.
No segundo dia do encontro, Rachel Trajber apresentou os protocolos sistematizados a partir das discussões dos grupos de trabalho e sua integração às políticas públicas nacionais. Além da coordenadora do Cemaden Educação, o dia final das atividades contou com a participação do cientista Carlos Nobre. Ele abordou o agravamento da emergência climática e reforçou o papel estratégico do Cemaden Educação no enfrentamento dessa realidade. Os protocolos resultantes do evento estão em fase de redação do texto-base e passarão por consulta pública antes de serem finalizados. A partir das discussões realizadas e das propostas surgidas no evento, a coordenadora do Cemaden Educação projeta um cenário de inclusão de múltiplas vozes nas etapas seguintes, para que os protocolos e práticas façam sentido para as comunidades. "As discussões dos grupos de trabalho foram muito ricas, e, durante as apresentações, os próprios participantes de cada grupo perceberam e estabeleceram pontos comuns entre os diferentes desastres. A próxima etapa é conseguirmos construir uma consulta pública, para incrementar a participação das pessoas. É do diálogo com as pessoas que vão surgindo novas propostas, ideias e formas de agir. Quanto mais elas estiverem envolvidas e engajadas, mais rico será esse processo", concluiu Rachel Trajber.


