Em Sergipe, o Programa Cisternas avança na construção de tecnologias sociais e acesso à água, promovendo segurança alimentar entre as famílias atendidas
A história da agricultora Elenusia Conceição e do professor aposentado Edilson Andrade teve um ponto de virada em 24 de dezembro de 2025, com a instalação de uma cisterna ao lado da casa. A iniciativa representa a conquista de um direito fundamental: ter acesso à água de qualidade. A experiência do casal sergipano é um relato que reforça o papel da política pública na promoção da segurança alimentar e na transformação da realidade de famílias e comunidades no Brasil profundo: o Programa Cisternas.
Nascidos no Povoado de Tapado, localizado no município de Pedra Mole, interior de Sergipe, Elenusia e Edilson experimentaram a dificuldade de milhares de famílias que sofrem com a escassez de água no semiárido brasileiro. Duas vezes por dia – assim como a maioria das mulheres por lá – Elenusia caminhava uma distância de cerca de cinco quilômetros para buscar água. Era preciso aproveitar o esforço e trazer o máximo possível. Por isso, trazia água nos braços e na cabeça, com habilidade e resiliência. Algumas vezes tinha a companhia do marido, o que garantia quantidade maior para o consumo da família.
A mudança de vida veio em 2025, quando família ouviu as pessoas da vizinhança falando do Programa Cisternas, do Governo do Brasil. O casal soube que a organização social Sociedade de Apoio Socioambientalista e Cultural (SASAC) estava na comunidade, fazendo prospecção das famílias que poderiam receber as cisternas de água para consumo. Era o Governo Federal, em parceria com o Governo de Sergipe, mobilizando a população para definir quem iria receber as tecnologias ainda naquele ano.
Executado a partir da parceria do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) com governos estaduais e municipais, consórcios públicos de municípios e organizações da sociedade civil, o Programa Cisternas se diferencia de outras políticas públicas de acesso à água por apoiar tecnologias sociais caracterizadas por serem simples, de baixo custo e de fácil gestão e manutenção pelos próprios beneficiários.
Benefícios
Foto: Clarita Rickli / MDS
Em novembro, a SASAC, que atua no território como Entidade Executora do Programa Cisternas, fez a mobilização das famílias e o resultado tão aguardado, chegou: na primeira quinzena de dezembro, Elenusia e Edilson começaram a sonhar com dias melhores. “Quando o Programa Cisterna chegou aqui, não veio como uma gota d’água, mas um oceano para mudar a nossa vida. Porque não é só a cisterna, mas todo o suporte e o cuidado que vem com ela”, celebrou Edilson.
A forma de implementação dessas tecnologias sociais consiste em diversas etapas. Desde a mobilização social, até a formação dos beneficiários, essas etapas preliminares são consideradas tão importantes quanto a própria construção das estruturas de captação e armazenamento de água. “Ao envolver as comunidades em todas as etapas do processo, espera-se ampliar a sustentabilidade dos ganhos sociais associados a um acesso seguro à água”, avalia a diretora de Fomento e Acesso à Água, da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Camile Sahb.
Hoje, com a cisterna ao lado de casa, Dona Elenusia caminha exatos 20 passos para levar água da cisterna até o filtro de barro, na cozinha. Ela conta com propriedade o que aprendeu no processo de capacitação do programa. Além das noções de cuidado e higienização das cisternas, o aprendizado foi além, com orientações de uso racional da água . “Uma pessoa como eu, já com meus 53 anos de idade, passar pelo que eu passei e estar aqui para contar essa história e viver esse momento, é maravilhoso! Não tem nada mais importante para nós do que cuidar bem dessa cisterna e da forma como a gente consome a água guardada nela”, relata a agricultora.
Edilson, professor aposentado, se orgulha por seguir aprendendo e ensinando com a vivência de cada dia. A água armazenada na cisterna é utilizada pelo casal e o filho, mas é também partilhada com vizinhos que ainda não tiveram a mesma oportunidade: “afinal, água é um bem que não se deve negar a ninguém”, relata.
Na propriedade, tudo é produzido pelo casal, sem usar nenhum tipo de veneno. Com a chegada da cisterna, a água utilizada para consumo pode ser reutilizada no cultivo de frutas e verduras no quintal. “Aqui a gente não compra fruta nem verdura. Tudo tem aqui: laranja, acerola, seriguela, manga, coco, quiabo, couve, macaxeira. É tudo saudável. Uma verdadeira riqueza”, comemora com orgulho o professor.
Edilson conta que o nome do povoado tem origem em uma época em que a região era coberta por árvores de angico. De tão abundante, a espécie utilizada como corante natural, no curtume, para dar cor a peças como calçados, arreios, chapéus, gibão, tapava a paisagem. Com o tempo, a água ficou mais escassa, os rios, que passavam muito tempo secos, foram aterrados para ampliar a área de cultivo do milho. Hoje, no povoado de Tapado, restam poucas árvores da espécie.
Da cisterna para filtro de barro
Foto: Clarita Rickli / MDS
Da janela da cozinha, Elenusia, olha a cisterna enquanto enche o copo d’água que sai do filtro de barro. “Quando chego em casa, nem vou na geladeira. Corro para o filtro de barro, de onde tiro a água fresquinha. Beber água do pote de barro é uma tradição do povo daqui e hoje faz parte desse programa do governo”, conta Edilson.
O que é cultura local, se transformou em aprimoramento do Programa Cisternas. Desde a retomada do Programa, em 2023, cada família atendida, seja no Semiárido ou na Amazônia, recebe, junto com a cisterna de água para consumo, um filtro de barro. O utensílio feito por gente da própria região, veio para dar mais segurança para as famílias, que agora contam com água filtrada, fresquinha e bem guardada, na cozinha da casa.
Claudio Batista, técnico da SASAC, fala desse diferencial. “Essa novidade tem sido muito bem aceita pelas comunidades, não só porque desperta a memória afetiva das pessoas, mas também pelo entendimento da importância de ter um cuidado especial com a água para beber. É um item que traz excelência O que antes era uma orientação, hoje está materializada nesse item tão importante, que é o filtro de barro”, avalia. Além disso, segundo ele, o mercado local, fornecedor de utensílios de barro, que desde muito tempo é uma tradição no Semiárido, tem se aquecido e movimentado a economia local.
Para o engenheiro agrônomo e técnico da Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania de Sergipe, Bráulio de Carli, o Programa Cisternas tem trazido uma solução para a área do semiárido no estado, porque dá segurança hídrica para famílias que não tinham acesso a esse direito até pouco tempo atrás. “Água é vida e água de qualidade é muito importante, porque ela beneficia as famílias com saúde, vai evitar doenças. Por isso que esse programa é uma parceria diferenciada”, avalia o técnico.
Sobre o Programa Cisternas
O Programa Cisternas é executado pelo Governo Federal, desde 2003 e tem objetivo promover o acesso à água para consumo humano e animal e para a produção de alimentos junto às famílias rurais em situação de baixa renda e a equipamentos públicos rurais (especialmente escolas) atingidos pela seca ou pela falta regular de água de qualidade.
Nos últimos anos, a prioridade de atuação do programa, com abrangência nacional, tem sido o Semiárido e a Amazônia, regiões com características climáticas e ambiental diferentes, mas cuja população rural em situação de pobreza enfrenta dificuldades para acessar água de qualidade, seja por uma questão de quantidade e qualidade, como é o caso da primeira região, como de potabilidade, como é o caso da segunda. A iniciativa busca enfrentar a questão da água com soluções tecnológicas adaptadas a cada contexto territorial e sociocultural.
De 2023 até o momento, foram entregues 121.240 cisternas e outras tecnologias sociais de acesso à água. Ao longo de seus mais de 22 anos, o Programa Cisternas já entregou cisternas em 1548 municípios, localizados em 19 estados, por meio de parcerias com governos estaduais e organizações da sociedade. O programa atua nos estados do Semiárido, na região Norte e no atendimento a demandas pontuais nos estados do Mato Grosso do Sul, Goiás e do Rio Grande do Sul. Em Sergipe, de 2023 até agora, foram entregues 2.626 cisternas, segundo dados do SIG Cisternas de abril deste ano.
Mais informações:[Programa Cisternas](http:// https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/acesso-a-alimentos-e-a-agua/programa-cisternas)



