Os participantes discutiram temas como a utilização da inteligência artificial na criação de documentos, os arquivos comunitários de resistência e os desafios da preservação digital em um contexto de crescente automação
Em sua apresentação, Charlley Luz propôs uma reflexão sobre a inteligência artificial como uma “máquina cultural”, capaz de aprender a partir de grandes volumes de documentos e gerar novos conteúdos. O pesquisador apresentou o conceito de “protóquivo”, entendido como um registro produzido por sistemas de IA que ainda não constitui um documento arquivístico completo. Charlley também chamou atenção para questões éticas relacionadas à produção de “emoções artificiais” e ao risco de os sistemas reproduzirem padrões estatísticos, clichês e generalizações em detrimento da singularidade dos registros humanos.
Na sequência, Neide de Sordi abordou o papel da mediação algorítmica no acesso aos arquivos. A pesquisadora apresentou a tecnologia conhecida como Retrieval-Augmented Generation (RAG), ou Geração Aumentada por Recuperação, que combina recuperação de informações e geração de respostas em linguagem natural. Segundo Neide, a abordagem representa um avanço significativo para instituições arquivísticas por possibilitar maior rastreabilidade das informações e atualização dinâmica dos conteúdos. Ao mesmo tempo, alertou para riscos como descontextualização documental, vieses e alucinações geradas pelos modelos de inteligência artificial, ressaltando a necessidade de mecanismos de governança arquivística para garantir a confiabilidade dos sistemas.
José Vasco ampliou o debate ao apresentar uma perspectiva geopolítica da preservação digital. Em sua exposição, destacou a relevância estratégica de infraestruturas como cabos submarinos e data centers, considerados elementos críticos para o armazenamento e circulação de informações. O pesquisador alertou para vulnerabilidades relacionadas a conflitos, sabotagens e dependências tecnológicas, defendendo a construção de políticas de soberania digital capazes de garantir a preservação da memória digital brasileira e a autonomia tecnológica do país. Como exemplo, mencionou iniciativas internacionais voltadas à proteção de acervos digitais, como a estratégia adotada pela Estônia para manutenção de cópias de segurança em território estrangeiro.
Ao longo do encontro, os participantes também discutiram temas como datacolonialismo, a utilização da inteligência artificial na criação de documentos, os arquivos comunitários de resistência e os desafios da preservação digital em um contexto de crescente automação. Um dos consensos do debate foi a necessidade de equipes multidisciplinares para implementação de soluções baseadas em IA, garantindo a participação ativa de arquivistas, cientistas da informação, profissionais de tecnologia e demais especialistas envolvidos na gestão documental.




