Não é exagero dizer que aRadioagência Nacionalamadureceu junto com a comunicação pública no Brasil. Essa agência de rádionasceu como um amplificador dos conteúdos do governo federal e passou por várias mudanças, até se consolidar como uma referência na distribuição de jornalismo em áudio, de graça, para as rádios do país.
No ar há 21 anos, aRadioagênciacomeçou quando aEmpresa Brasil de Comunicação (EBC)ainda era Radiobrás. Nessa época, em 2004, a missão da empresa era dar publicidade aos atos e ações do Poder Executivo federal.
Kátia Sartório era chefe do radiojornalismo da Radiobrás, vinda de uma agência de rádio de São Paulo. E ela via o conteúdo produzido diariamente pela equipe dela entrando nas ondas do rádio para se perder em seguida.
“Nós fomos com um projeto de criar a redação multimídia, que era justamente o aproveitamento de todo o material que era produzido, para não se perder e ser reaproveitado”.
Antes disso, a única forma das emissoras do país aproveitarem o conteúdo produzido era retransmitindo o jornal da Rádio Nacional, como conta Kátia Sartório.
"Eles não podiam entrar com o comercial, porque é isso que as rádios vivem, é do comercial, né? Então nós demos para eles uma oportunidade de incluir esse material de acordo com o ritmo e a programação deles”.
Agências de rádio, claro, já existiam. Mas de graça, nenhuma. E, assim, 450 emissoras se cadastraram para usar o conteúdo daRadioagência.
Na época, o foco estava no governo federal.Tempos depois, a Radiobrás virou EBC, a primeira empresa de comunicação pública federal.O país se esforçava por recuperar o tempo perdido, diante das nações onde a radiodifusão já nasceu pública.Um jornalismo independente do governo, que tem a missão de amplificar as mais diversas vozes que temos no Brasil.
E foi com a missão de levar a Radioagência para essa nova realidade que Juliana Cézar Nunes começou a chefiar a agência de rádio, em 2008.
“Tinha uma equipe que aproveitava o material que era produzido na época na Radiobrás, mas tinha também a possibilidade de assessores dos ministérios, da presidência, publicarem conteúdo também. E aí quando eu chego e está se construindo a EBC, uma das primeiras tarefas que a gente teve foi de fazer essa separação. E fazer também uma adequação editorial para aprofundar nos princípios da comunicação pública.”
A Radioagência transforma seu jornalismo e, segundo Juliana, para mostrar ao mercado que tinha credibilidade e qualidade, mirou em conteúdos especiais, diversidade e prêmios.
“A gente começou a refletir sobre a importância de fortalecer a Radioagência enquanto um veículo. E foi quando começamos a construir projetos de radiodocumentários especiais, poder concorrer a prêmios e, com isso, fortalecer a marca e também ganhando essa credibilidade no próprio meio jornalístico”.
E os prêmios vieram. Libero Badaró, Petrobras de Jornalismo, Sebrae... e veio também a necessidade de ampliar a voz da Radioagência num momento de integração da América Latina.Nasceu, então, o Voces Del Sur.
“Num momento que a EBC se articulava com as emissoras da América Latina. Ele chegou a ser utilizado por algumas rádios, principalmente na Argentina, e a gente recebeu alguns feedbacks interessantes do Equador, da Bolívia”.
Tanto o Voces del Sur como outras iniciativas daRadioagênciaforam descontinuadas em um período de desafios para o jornalismo público. A partir de 2017, a comunicação de governo voltou, aos poucos, a ter força nos veículos da EBC. A estrutura foi reduzida, com programas de demissão voluntária em massa.
E muitos temas, como covid-19, vacina, ditadura, homofobia e até agrotóxicos eram censurados. Mas não sem resistência. Adrielen Alves foi editora na primeira equipe da Radioagência, lá atrás, e, anos depois, voltou para coordenar o veículo em 2017. Ela foi uma das pessoas a enfrentar o desafio.
“A gente foi se norteando, obviamente, pelos nossos manuais e pelo nosso senso crítico. A gente era uma equipe de editores muito incríveis, muito críticos, mas também muito sábios. Nunca foi fácil, mas acho que foi um espaço para a gente poder se firmar. Olha, comunicação pública é assim que se faz, independente de governo, independente de gestão, a gente está aqui para poder mostrar o que o jornalismo tem apurado, olhando vários lados, não só um”.
Hoje, aRadioagênciapassa por um intenso processo de reconstrução. As rádios que usam o conteúdo dela passam de 4 mil. São veiculadas, também, matérias de emissoras da Rede Nacional de Comunicação Pública.
E uma pesquisa feita no ano passado pelaEBCapontou que ela é o serviço mais buscado da empresa para jornalismo de áudio. Mas a força desses dados é mais evidente em histórias como a que Adrielen Alves conta.
“Fui visitar a família do meu marido, bem no interior do Maranhão, mesmo. Em algum momento, meu marido falou com o dono da lanchonete que eu trabalhava na Rádio Nacional. Aí ele: vamos ali na rádio agora. Fui na rádio, e eles baixavam o conteúdo da Radioagência. Muito incrível. E eles montavam a programação com esse material. E me fizeram uma entrevista ao vivo. Quando eu terminei essa entrevista que eu voltei pra pracinha, veio todo mundo abraçar. É o poder da comunicação pública, da Radioagência e da Rádio Nacional”.
Em um país onde o rádio ainda é o único veículo de comunicação que chega em muitas comunidades, garantir que histórias como essas sigam se realizando é, para Juliana, Kátia, Adrielen e pra mim, que sou editora da Radioagência, garantir plenamente o sentido de existência da comunicação pública.
"As emissoras de rádio do interior, principalmente, não têm equipe de jornalismo. E aí, o que que nós oferecemos para eles, né? Distribuímos de graça, né, um material muito rico. Porque a informação é um direito do cidadão”, destaca Kátia Sartório.
Juliana Cézar Nunes também fala desse papel:
“Eu costumo dizer que acho que a Radiagência contribui para a realização plena do sentido da comunicação pública, porque ela leva esse conteúdo, amplifica em uma escala enorme e em lugares que são os chamados desertos de notícia, mesmo. Eu desejo vida longa para que a Radioagência continue cada vez mais cumprindo e intensificando a sua missão”.
Em setembro, na véspera de completar 21 anos, aRadioagência Nacional alcançou mais de 700 mil usuários e mais de 1 milhão de acessos.E que venham muito mais!
