Carta de Pero Vaz de Caminha, correntes marítimas, ventos e profundidades costeiras são utilizadas para defender que o primeiro contato da expedição portuguesa com o Brasil ocorreu no litoral potiguar
A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) promoveu, nesta sexta-feira (19), debate intitulado "Reavaliando a História do Brasil", focado nas evidências científicas que sugerem que a esquadra de Pedro Álvares Cabral teria desembarcado originalmente no litoral do Rio Grande do Norte, e não na Bahia. O evento contou com a exposição do físico Carlos Chesman de Araújo Feitosa, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que apresentou os resultados de uma pesquisa que utilizou ferramentas da física, matemática e georeferenciamento para revisar o relato sobre 1500.
Mediado pelo pesquisador da Fundaj Marcos Lucena, o debate aconteceu na Sala Calouste Gulbenkian, Campus Gilberto Freyre da instituição, em Casa Forte.
De acordo com o pesquisador, a investigação baseia-se em dados numéricos contidos na carta de Pero Vaz de Caminha, como as distâncias percorridas e as descrições geográficas. Chesman ressaltou a importância de levar o debate para fora do seu estado de origem: “É a primeira palestra que alguém do Rio Grande do Norte consegue sair do Rio Grande do Norte e dizer que isto é uma possibilidade”.
A tese defendida por Chesman e seu colega Cláudio Furtado, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que não pôde comparecer ao evento, indica que a trajetória da frota portuguesa, após passar por Cabo Verde, foi fortemente influenciada pelos ventos alísios e pela força de Coriolis. Segundo os cálculos, o percurso de aproximadamente 4 mil quilômetros registrado por Caminha aponta diretamente para o litoral potiguar.
“O que a gente fez inicialmente foi pegar tudo que era numérico e comparar com o que temos de informação atual”, explicou o físico durante a palestra. Ele argumentou que o “grande monte, mui alto e redondo” descrito na carta, tradicionalmente identificado como o Monte Pascoal na Bahia, possui características que se ajustam melhor à Serra Verde, localizada em João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte.
O estudo sugere que o local exato do desembarque teria ocorrido na Praia de Zumbi, entre os atuais municípios de Rio do Fogo e São Miguel do Gostoso. Além disso, a presença de uma foz de rio descrita no documento histórico é associada pelos pesquisadores ao Rio Punaú, também do RN.
Um dos pontos centrais da fala de Chesman foi a dificuldade de integrar os métodos das ciências exatas aos estudos históricos consagrados. O pesquisador relatou a resistência encontrada em periódicos científicos de ambas as áreas. “Os colegas da física têm medo de entrar porque não entendem de história. É normal. E os historiadores não querem entrar porque tem os fatídicos números. Então a gente fica nesse meio termo”, desabafou.
Apesar das controvérsias, a pesquisa já ganhou repercussão internacional ao ser publicada no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge. O objetivo de Chesman é que o estudo estimule uma reflexão sobre o que sabemos geograficamente sobre a história oficial: “O objetivo da gente é nesses próximos tempos, próximos anos, ir divulgando isso para que as pessoas possam pensar sobre essa possibilidade”.
A proposta da pesquisa não é apenas uma nova interpretação textual, mas um convite à análise técnica de documentos centenários.




