Novo boletim do Painel El Niño aponta mais de 90% de probabilidade de ocorrência de evento muito forte entre setembro e novembro. Nota técnica do Cemaden orienta gestores da Educação sobre prevenção e adaptação das escolas
O novo episódio do El Niño, que deve persistir até pelo menos o início de 2027, pode ganhar intensidade nos próximos meses, com impactos diferentes entre as regiões brasileiras. A terceira edição do Painel El Niño, referente a agosto, aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro, apresenta informações atualizadas sobre monitoramento, previsões e possíveis impactos associados ao fenômeno no Brasil e busca subsidiar ações de prevenção, preparação e gestão de riscos.
A recomendação de prevenção é detalhada em uma nota técnica elaborada por pesquisadores do Cemaden — unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) — e do Instituto Alana, que orienta as redes de ensino a incorporarem a preparação para riscos climáticos ao planejamento das escolas.
A Nota Técnica nº 987/2026, intitulada El Niño 2026-2027: Orientações para a Preparação das Redes de Ensino Brasileiras, ganha importância diante da dimensão da rede educacional brasileira. O documento estima que existam cerca de 150 mil escolas públicas no País e aponta que mais de 40 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a riscos como inundações, escassez hídrica e calor extremo. Além disso, destaca que mais de 370 mil crianças estudam em escolas localizadas em áreas de risco nas capitais.
Prevenção deve fazer parte da gestão escolar
Elaborada para gestores públicos da Educação e profissionais responsáveis pelo planejamento e implementação de políticas educacionais, a nota técnica propõe que a gestão de riscos e a adaptação às mudanças climáticas não sejam tratadas apenas como medidas emergenciais. Para os pesquisadores, a preparação precisa fazer parte de forma permanente do planejamento educacional, em articulação com as características de cada território.
Isso porque, segundo os pesquisadores, o El Niño não determina, por si só, a ocorrência de um desastre. O fenômeno altera a probabilidade de determinados eventos extremos, enquanto a dimensão dos impactos depende também das condições sociais, ambientais e territoriais, incluindo exposição, vulnerabilidades e capacidades locais.
Para o período de 2026/2027, a nota técnica considera entre os principais riscos as temperaturas elevadas, alterações no regime de chuvas, ondas de calor, secas e incêndios florestais, além de eventos associados ao excesso de chuva no Sul.
Recomendações
Entre as medidas sugeridas estão a aproximação das Secretarias de Educação com órgãos da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Saúde, Assistência Social, Planejamento Urbano e Meio Ambiente; a criação de estruturas de governança para emergências; a definição prévia dos fluxos de comunicação com as escolas; e o acompanhamento dos alertas emitidos pelos órgãos oficiais.
O documento também recomenda que as redes façam um diagnóstico das unidades escolares para identificar áreas de risco e estudantes em situação de maior vulnerabilidade socioambiental. Esse levantamento deve considerar localização, condições físicas das edificações, mobilidade e acessibilidade, infraestrutura urbana, exposição a riscos e características da comunidade escolar. A partir desse diagnóstico, os recursos destinados à adaptação podem ser direcionados prioritariamente às escolas e comunidades mais expostas.
A preparação envolve ainda medidas diretamente relacionadas ao cotidiano das escolas. A nota técnica recomenda formações periódicas das equipes, definição de protocolos para diferentes ameaças, reorganização de espaços, horários e fluxos em períodos críticos e realização de simulados pelo menos uma vez por ano. As redes também são orientadas a estabelecer previamente estratégias para garantir a continuidade das atividades educacionais em caso de suspensão das aulas presenciais.
Para os pesquisadores, a adaptação também passa pela infraestrutura. Medidas como melhoria da ventilação, manutenção das instalações, aumento da cobertura vegetal e criação de áreas verdes podem contribuir para o conforto térmico e para o manejo da água nas escolas, considerando acessibilidade, características bioclimáticas, condições sociais e especificidades culturais de cada território.
A Educação para Redução de Riscos de Desastres é apresentada como parte desse processo. A abordagem busca desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes para que a comunidade escolar participe da prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação diante de situações de risco.
Painel El Niño
O novo boletim atualiza um cenário que já vinha sendo acompanhado desde junho. Na edição de julho, o Painel apontava alta probabilidade de que o fenômeno alcançasse intensidade muito forte e 100% de probabilidade de permanência até pelo menos o início de 2027, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Nesse cenário, as anomalias de temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico equatorial poderão superar 2,0 °C entre a primavera e o verão de 2026.
A edição de agosto mantém essa perspectiva e aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro. Além disso, o boletim registra que as anomalias de temperatura do Pacífico equatorial chegaram a 1,8°C na região do Niño 3.4 nas últimas semanas.
A previsão climática para setembro-outubro-novembro de 2026 indica chuvas acima da média na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, e em parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul. No centro-norte do País, a tendência é de chuvas abaixo da média, com destaque para áreas das regiões Norte e Nordeste e para Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo.
As temperaturas devem ficar acima da média em praticamente todo o Brasil, embora massas de ar frio possam provocar quedas bruscas, especialmente em setembro.
A combinação de calor e chuvas abaixo da média nas regiões central e norte pode ampliar o déficit hídrico e o risco de incêndios florestais, sobretudo se houver atraso no início da estação chuvosa. Na Amazônia Legal e no Pantanal, o trimestre marca normalmente a transição do período seco para o chuvoso. Um El Niño mais intenso e prolongado pode atrasar essa transição, prolongando a estiagem e deixando solo e vegetação mais suscetíveis ao fogo.
Diante desse cenário, as instituições participantes reforçam a importância do acompanhamento das condições meteorológicas, hidrológicas e geológicas e das previsões, avisos e alertas dos órgãos oficiais.
O documento é elaborado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — unidade de pesquisa vinculada ao MCTI —, em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Cemaden, o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
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