Evento é um marco da aproximação de proponentes e incentivadores para discutir estratégias de captação, desafios, oportunidades e sustentabilidade de projetos do setor em todo o país
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Ministério da Cultura (MinC) realizaram, nesta quinta-feira (27), no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), em São Paulo, o encontro “Patrimônio Cultural na Rouanet: Diálogo do Setor”. A iniciativa, pensada para fortalecer o uso da Lei Rouanet no campo do patrimônio cultural, reuniu especialistas, gestores públicos, patrocinadores, representantes de empresas e executores de projetos de todas as regiões do país.
Entre os temas centrais debatidos ao longo dos dias, estiveram presentes o uso estratégico dos dados abertos do Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), a chegada dos fundos patrimoniais culturais como novo modelo de sustentabilidade e a importância da busca ativa de patrocinadores, com foco em alinhamento de valores e objetivos. Para os participantes, o dia marcou o início de um diálogo contínuo entre poder público, setor privado e sociedade civil.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, destacou a importância da Lei Rouanet para o patrimônio cultural e a necessidade de ampliar a compreensão pública sobre o mecanismo. “Avançamos muito nessa gestão: tornamos o mecanismo mais transparente, juridicamente mais seguro e mais democrático. Hoje, em todos os estados, há recursos incentivados chegando a bons projetos e levando cultura à população", afirmou.
Ele também mencionou iniciativas estruturantes, como aPlataforma de Projetos da Rouanet e o programa recém-lançado Adote um Projeto. “Queremos mais ações, mais financiamento e mais facilidade. Nosso legado será um Iphan mais moderno, preparado e próximo da sociedade", finalizou.
Foto: Jess Lima
Henilton Menezes, secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, reforçou o compromisso de nacionalizar a Lei Rouanet e destacou seu impacto econômico (a cada R$ 1 investido, R$ 7 são movimentados na economia brasileira). Ele ainda orientou proponentes sobre a captação: “É fundamental que cada projeto saiba explicar claramente o que é a Lei Rouanet, seus objetivos e funcionamento. Informação precisa faz toda a diferença na hora da captação.”
Danilo Nunes, superintendente do Iphan em São Paulo, destacou o papel do diálogo na gestão atual. “Investir em patrimônio é falar de desenvolvimento urbano e de políticas sociais. Este é um espaço aberto. Este evento é para todo mundo.”
Representando o MinC em São Paulo, Alessandro Azevedo ressaltou o compromisso da atual gestão federal com o fortalecimento da cultura, e Odecir Costa, diretor de Fomento Indireto do MinC, apresentou as novas possiblidades de uso dos fundos patrimoniais culturais, a fim de abrir outras possiblidades para a preservação do patrimônio cultural.
Para encerrar o encontro, Daniel Sombra, diretor do Diretor do Departamento de Ações Estratégicas e Intersetoriais (DAEI) do Iphan e responsável pela coordenação geral do evento, destacou que o diálogo estabelecido no MASP representou um marco e abriu um novo momento para o patrimônio cultural na Lei Rouanet. "Tivemos a presença de atores do Brasil inteiro, em um encontro único, que será o primeiro de muitos. Recebemos inúmeras sugestões, que serão analisadas e contribuirão para aprimoramentos para o setor", afirmou.
Estratégias para a captação
Um debate sobre captação de recursos e relacionamento com patrocinadores marcou a parte da tarde do evento, com participação de Xavier Vieira
Foto: Jess Lima
(APPA), Padre Marcondes Meneses (Centro Cultural São Francisco), Carla Nogueira Marques (Instituto Pretos Novos), Márcia Nogueira (MANÁ Produções), Julia Machado (Porto Digital), com mediação de Danielle Santana (CNIC). O painel evidenciou um ponto comum entre os participantes: a captação segue sendo um dos maiores desafios para os projetos de patrimônio. A necessidade de criar estratégias mais assertivas, mobilizar redes locais e aproximar as empresas da importância do patrimônio cultural guiou as apresentações.
Os painelistas convergiram na mesma constatação: captar exige método, preparo e envolvimento real do patrocinador com o projeto.
Padre Marcondes Meneses, diretor-geral do Centro Cultural São Francisco (PB), destacou a importância da pesquisa estratégica como ponto de partida: “Dentro do Salic, verificamos quais empresas já aportavam pela Rouanet e estudamos seus focos de investimento”
Para Márcia Nogueira, Head de Patrocínios & Parcerias da MANÁ Produções (AM), compreender a perspectiva das empresas foi determinante. “Percebi que eu não conhecia a realidade de quem estava do outro lado da mesa. Passei a estudar mais as marcas e suas estratégias de marketing”.
O uso de tecnologia foi um diferencial destacado por Xavier Vieira, presidente da APPA (MG). Ele apresentou uma metodologia de prospecção altamente direcionada. “Usamos inteligência artificial para levantar dados e validar empresas com real viabilidade de contato. A chave é direcionar.”
Já Carla Nogueira Marques, do Instituto Pretos Novos (IPN), do Rio de Janeiro, enfatizou a dimensão histórica e social do diálogo com patrocinadores. “A questão da escravidão precisa ser reparada e conversamos com os patrocinadores nessa perspectiva”.
Desafios e perspectivas de incentivadores
Dessa forma, a sustentabilidade é um critério central para a tomada de decisão, destacou Tatiana de Souza Montorio, coordenadora do Instituto Rumo. Segundo ela, muitos projetos não avançam simplesmente porque não são compreendidos: “Às vezes, o projeto não é aprovado, porque ninguém entendeu nada”. Tatiana reforçou que proponentes precisam apresentar objetivos, custos e prazos de forma clara e objetiva, usando uma linguagem mais próxima do ambiente corporativo.
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