O cenário atual do mercado de trabalho para idosos no Brasil revela uma tendência crescente que merece atenção e políticas específicas. Conforme dados do Observatório dos Direitos Humanos (ObservaDH), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), em 2022, o país registrou um recorde de 4 milhões de pessoas idosas trabalhando na informalidade. Este número representa um aumento de 4,9% em relação ao mesmo período do ano passado e um crescimento significativo de 36,6% desde o início da pandemia, no segundo trimestre de 2020. A informalidade atinge pessoas idosas que perderam empregos formais, nunca tiveram carteira assinada, ou se aposentaram e retornaram ao mercado de trabalho para complementar a renda. Em alusão ao Junho Violeta, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania joga luz sobre a questão pela perspectiva do etarismo, que é um dos principais preconceitos que dificultam o acesso dessa população ao mercado de trabalho formal. O aumento na informalidade entre os trabalhadores mais velhos também pode ser atribuído a crise econômica causada pela pandemia de Covid-19, que levou muitas pessoas a garantirem renda na informalidade.
Luiz Gustavo Lo-Buono explica como o idadismo influencia a cultura de trabalho na sociedade capitalista (Foto: Clarice Castro - Ascom/MDHC) Na avaliação do coordenador-geral de Direitos Humanos e Empresas do ministério, Luiz Gustavo Lo-Buono, esse preconceito contra pessoas, com base na idade, remonta a construção histórica do modelo de trabalho. "Essa discriminação tem origens múltiplas, incluindo a construção de estereótipos, a estrutura social desigual do país e a lógica capitalista das empresas, que priorizam lucro e produtividade", observou. “Esses três elementos compõem um pouco dessa visão mais geral sobre discriminação, ambiente de trabalho e informalidade de alguns grupos e são cruciais para entender esse movimento", acrescentou. Experiências reais e impactos sociais Para muitas pessoas idosas, a informalidade representa não apenas uma necessidade financeira, mas também uma forma de se manterem ativos e socialmente engajados. É o caso do professor Maurício da Silva, popularmente conhecido como professor Maurício, que mesmo aposentado, continua a lecionar. "Exerço o papel de professor em cursinhos e, mais frequentemente, em aulas de reforço. É um trabalho que me dá muito prazer e compensa um pouco da defasagem do meu benefício", reconhece. Aos 74 anos, Maurício enfrenta desafios comuns a muitos idosos no mercado de trabalho. "Eu não tenho mais acesso ao emprego formal devido à idade. Depois dos 40 anos, criou-se um entendimento conjuntural de que o homem não é aproveitado pela sua experiência", lamenta. O professor destaca ainda o preconceito que enfrenta diariamente: "Quantas vezes ouvi, indiretamente, nos coletivos que um velho está ocupando o lugar de jovens. A sociedade acha que velho é descartável", desabafa. Apesar dos desafios, Maurício mantém uma atitude positiva e proativa. "O trabalho, ao contrário, me ajuda e me fortalece. Tenho um compromisso com a minha profissão e com a minha honradez, tanto que estou correndo atrás de aprender a usar o computador e o celular. A inteligência artificial me assusta um pouco, mas tenho esperança. Quem não acompanhar as tecnologias fica a reboque", alerta. O professor também destaca a importância da educação contínua para pessoas idosas. "Este ano, a UnB programou um vestibular para maiores de 60. Achei isso extraordinário e pretendo participar na próxima oportunidade", promete Maurício, que acredita que os idosos têm muito a oferecer à sociedade. "Nós podemos ajudar muito ao país através de palestras, aconselhamento público e consultas. Podemos fazer muito ainda por este país", garante. Mercado formal
Morris Litvak defende a contratação de pessoas mais velhas (Foto: Divulgação Maturi) A diversidade etária tem se mostrado crucial no cenário atual do mercado formal, não apenas como um valor moral, mas como um impulsionador de inovação e produtividade. Para Mórris Litvak, CEO e fundador da startup Maturi, especializada no mercado da longevidade, essa diversidade é fundamental porque promove uma troca rica de experiências e perspectivas. "Combinar a energia e a inovação dos mais jovens com a sabedoria e a experiência dos mais velhos cria um ambiente mais equilibrado e inovador, onde todos aprendem uns com os outros, resultando em soluções mais robustas e criativas", acredita. No entanto, ele ressalta que existem desafios significativos a serem superados, como o preconceito etário e a resistência à mudança. "Muitas vezes, há uma percepção equivocada de que profissionais mais velhos não conseguem acompanhar a evolução tecnológica ou são menos produtivos, o que não corresponde à realidade", rechaça Litvak. Para promover uma cultura de inclusão etária, o especialista sugere algumas estratégias práticas, como a adoção de políticas de recrutamento inclusivo, programas de mentoria reversa e oferecer treinamento contínuo. “Além disso, é crucial criar uma cultura organizacional que valorize a experiência e ofereça oportunidades de desenvolvimento para todas as faixas etárias", sugere, ao vislumbrar um futuro promissor para a diversidade etária nas empresas. "Vejo um futuro em que equipes intergeracionais serão cada vez mais valorizadas. Tendências como programas de requalificação e políticas de trabalho flexível para profissionais 60+ estão em ascensão, refletindo uma maior conscientização sobre os benefícios dessa diversidade," concluiu o especialista. Leia mais: Junho Violeta: como homens são atingidos pela aposentadoria e o preconceito quanto à vida afetiva Sobrecarga acumulada e pressão estética: como o idadismo afeta a vida das mulheres idosas Entenda o que é idadismo e ajude a combater essa prática discriminatória Confira todas as peças e matérias da campanha Texto: E.G. Edição: B.N. Para dúvidas e mais informações: gab.sndpi@mdh.gov.br Atendimento exclusivo à imprensa: imprensa@mdh.gov.br Assessoria de Comunicação Social do MDHC (61) 2027-3538 (61) 9558-9277 - WhatsApp exclusivo para relacionamento com a imprensa


