Você já ouviu falar num gás limpo feito a partir do lixo? Na segunda reportagem da série sobre combustíveis do futuro, nós vamos mostrar que o biometano já é usado no Brasil.
Debaixo do solo de um lixão, onde não há oxigênio, a decomposição da matéria orgânica, como restos de comida, produz naturalmente o biogás. “Ele é um gás que tem em torno de 50% de metano, 40% de CO2, 9% de nitrogênio e 1% de oxigênio, além de vários contaminantes que fazem mal tanto para o meio ambiente quanto para o ser humano. O metano é considerado cerca de 28 vezes mais nocivo ao ambiente, em relação aos efeitos estufa, que o CO2”, explica Vinícius Ferreira, coordenador da planta de biometano da Orizon-PE.
Mas esse biogás, extremamente poluente, se estiver num aterro sanitário e não num lixão, pode ser capturado e purificado para se transformar no biometano, um importante combustível do futuro. Aqui na Grande Recife esse processo já acontece.
“Basicamente, tanques com carvão ativado e com outras substâncias retêm todos esses contaminantes. E no final desse primeiro processo, desse pré-tratamento, eu tenho um biogás limpo, mas ainda com aquelas concentrações de metano e CO2 que eu comentei. E aí vem a segunda etapa: a segunda etapa, que a gente chama de upgrade do biogás, ele vai entrar com um biogás com 50% de metano e vai sair com 95%. É como se fosse uma grande peneira que o que é metano passa, o que não é metano fica. Então é uma alternativa renovável ao gás natural”, detalha o coordenador.
Depois disso, o biometano é distribuído por meio da Copergás, que mistura esse combustível com o gás natural, que é fóssil. Isso porque o biometano ainda representa só 6% do volume total do gás distribuído pela companhia, com projeção de chegar a 8% até o fim do ano. Essa mistura vai para as casas das pessoas, estabelecimentos de todo tipo e para os postos de abastecimento de veículos da Grande Recife.
“A gente tem ainda todo um conjunto de clientes residenciais que usam ainda o botijão. Mas à medida que a gente consegue chegar com gás encanado, ele traz maior segurança, maior dignidade para aquelas pessoas e um acesso a uma fonte de energia mais barata. Então, a tendência é que, na medida que a gente consiga expandir a rede de gás natural, a gente também traga os novos energéticos”, afirma Guilherme Cavalcanti, presidente da Companhia Pernambucana de Gás.
A produção do biometano na Grande Recife começou no final de março. Mas outro estado nordestino já fabrica e usa esse combustível desde 2018. No Ceará, o biometano já responde por 15% da mistura fornecida à população.
“O biometano tem o mesmo valor energético do gás natural tirado do poço de petróleo. Com a mesma capacidade energética do gás natural comum e numa pegada 100% sustentável. Não é uma tendência do mundo a descarbonização, é uma necessidade”, define Eduardo Marzagão, diretor-presidente da Cegás.
No restaurante do chef José Valdir, em Fortaleza, a equipe ficou confusa quando soube a origem do gás encanado. “Acabou muitas pessoas, os cozinheiros da gente, tudo que a gente trabalha numa equipe, eu tenho uma equipe grande, então assim, eles ficaram até assim, surpresos quando falaram de onde era, o que que produzia esse gás, o que que fazia, então assim, tinha muito que esquecer... Mas eu não sabia que lixo dava gás e deu o gás hoje que tem. Eu tomara que todo mundo se aperfeiçoe nisso e vá todo mundo usar esse gás”, conta ele.
O Brasil tem cerca de 80 plantas de biometano em vários estados. Sancionada pelo governo federal em outubro de 2024, a Lei do Combustível do Futuro incentiva a descarbonização e a segurança energética.
“Além de você ter a redução das emissões de gases de efeito estufa, esses novos combustíveis, esses combustíveis do futuro, combustíveis sustentáveis, como cada um gosta de chamar, eles trazem segurança energética, eles contribuem para que você garanta o suprimento, o abastecimento de energia do país em condições mais variadas possíveis”, explica Mariana Espécie, chefe da assessoria especial do Ministério de Minas e Energia.
Desde 2010, quando surgiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, mais de 800 lixões foram substituídos por aterros sanitários, o que aumenta o potencial de produção do biometano no país.
“Eu lembro ainda do que era o lixão da Muribeca. O que era aquela realidade de você ver famílias miseráveis vivendo do lixo e o lixo acumulado ali a céu aberto. Então quem lembra disso e hoje vê o aterro sanitário e vê a coleta de energia a partir daquilo, dá uma sensação boa de futuro chegando”, destaca Guilherme Cavalcanti.
Reportagem 1 -Brasil avança na produção de combustível verde
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