Em 1949, como deputado, Gilberto Freyre possibilitou a criação da atual Fundação Joaquim Nabuco
Por Cibele Barbosa, pesquisadora e historiadora da Fundação Joaquim Nabuco
É difícil encontrar alguém que já não tenha ouvido falar em Gilberto Freyre. O pernambucano nascido em 1900 foi um dos intelectuais mais conhecidos e debatidos do século XX no campo das ciências sociais. Sua fama se iniciou pela forma ousada como tratou a formação da sociedade brasileira.
Os males da população brasileira seriam fruto da escravidão e da monocultura e não em razão da raça. Nessa obra, Freyre também chocou as elites da época por mostrar, sem filtros, detalhes da vida privada dos senhores de engenho marcados por violências, sadismo e perversão.
Em 1937, em seu livro Nordeste, discutiu ecologia. Em um dos trechos do livro, sentencia: “Nunca foi mais violento nos seus começos o drama da monocultura que no Nordeste do Brasil. Nem mais ostensiva a intrusão do homem nos mecanismos da natureza. [...] O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de água fedorenta de suas usinas.”
Também nessa época realizou o Primeiro Congresso Afro-brasileiro, em 1934, no qual buscou valorizar a presença da cultura africana em um tempo no qual as elites queriam copiar modelos europeus e valorizar o que vinha de lá, menosprezando a cultura popular, regional e de origem africana que tínhamos aqui.
Nas décadas seguintes, Freyre publicou obras sobre diversos temas como arquitetura, moda, urbanização e até pós-modernidade, somando aproximadamente 70 obras. Em 1949, como deputado, possibilitou a criação da atual Fundação Joaquim Nabuco. Nos tempos da Segunda Guerra Mundial, crítico que era de nazistas, fascistas e integralistas em suas odes à raça pura, defendeu que o Brasil seria o país, em contraste, mais próximo de uma democracia racial.
Em meados do século XX essa explicação sobre o país foi bastante agenciada por uns e criticada por outros, principalmente a partir da década de 1960, por ser considerada um “mito” que negava o racismo no Brasil. Intelectual público, com projeção internacional, Freyre esteve sempre presente com textos na imprensa.
Em razão de seus posicionamentos políticos pró-regimes não democráticos como o salazarismo e a ditadura militar no Brasil, foi alvo de várias críticas. Fato é que Freyre não deixou indiferentes seus leitores. Um dos mais originais intelectuais do país, agraciado por muitos e criticado por outros, sua obra transcende os tempos e merece ser lida em sua diversidade e inventividade.
