Historiadora Maria Helena Machado visita exposição “Elas”, na Fundaj
Maria Helena Machado comentou sobre itens da exposição que representam mulheres escravizadas no Brasil Compartilhe: Compartilhe por Facebook Compartilhe por Twitter Compartilhe por LinkedIn Compartilhe por WhatsApp link para Copiar para área de transferência
Publicado em
16/09/2025 12h13
A historiadora Maria Helena Machado visitou a exposição “Elas”, que ocupa o primeiro andar do Museu do Homem do Nordeste (Muhne). No acervo, dentre tantas obras que foram feitas por mulheres e/ou que representam mulheres, a historiadora Maria Helena Machado destacou as obras que representavam mulheres escravizadas.
Professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e especialista no período da escravatura, Machado ressaltou que a escravidão das mulheres era "muito mais cruel e estabelecida em bases generificadas".
Maria Helena Machado é autora do livro “Geminiana e seus filhos - Escravidão, maternidade e morte no Brasil do século XIX”, que foi eleito o Melhor Livro do Ano 2025 pela Latin American Studies Association (LASA) e Finalista Jabuti Acadêmico 2025. “Trabalho especificamente com mulheres escravizadas, libertas ou libertadas, quer dizer, em processo de libertação, no século XIX. Então, posso dizer que a mulher é fundamental na consolidação da escravidão devido ao parto sécor ventre. Quer dizer, a escravidão é uma instituição gerida que faz a sucessão pelo ventre da mulher, diferentemente da sociedade patriarcal, cujo nome é do pai, né? E a mãe é invisibilizada. Na escravidão, a o legado, né, o status jurídico de ser escravo é legado pela mãe”, explicou.
Além disso, a historiadora ressaltou o quanto ter filhos faziam da mulher um alvo muito mais “disciplinável”, por conta das ameaças também às crianças. Na exposição, Maria Helena Machado atentou para a representação de mulheres escravizadas que trabalhavam como amas de leite. Essas mulheres, alvos de mais disciplina com relação ao que poderia acontecer com seus filhos, tinham que alimentar os filhos de seus escravizadores.
Segundo a historiadora, ter uma pessoa escravizada como ama de leite é uma peculiaridade da escravatura no Brasil. “O sistema de utilização de amas de leite, sobretudo escravizadas, é muito peculiar do Brasil, mesmo em outras sociedades escravistas, como a cubana, a norte-americana e de outros países latino-americanos que tiveram menos inserção na escravidão. Ama de leite é rara”, explicou.
Essas mulheres eram vigiadas com muito afinco. Havia crenças de que a ama de leite não podia ter relações sexuais para não estragar o leite ou engravidar, seus corpos eram “escaneados” por médicos e ainda havia a desconfiança de que o leite da mulher negra poderia ser contaminado pela “ignorância africana”.
Para Maria Helena Machado, a questão fundamental ao estudar amas de leite não é se elas gostavam ou não da criança branca (o que não pode ser concluído pelas fontes mediadas pelos senhores), mas sim a realidade profissional e dura dessa mulher, onde o carinho não importa, pois o trabalho era o mesmo: oferecer seu próprio leite e corpo para a sobrevivência de uma criança que não era sua.
A pesquisadora também ressaltou que não há registro de mães escravizadas com seus filhos, todo registro que se tem é ao lado de uma criança branca ou com uma criança branca no colo. Nunca com a sua própria criança. “Essas mulheres negras com as crianças brancas, inclusive as que tem na exposição, são todas escravizadas. Nenhuma delas está com seu filho. Então, a pergunta que a gente faz é: ‘Cadê?’”, questionou a historiadora.
Questionada sobre a importância de Joaquim Nabuco para o movimento abolicionista, Machado destacou o uso da figura de Nabuco por pessoas escravizadas para justificar a luta. “Nabuco era uma figura emblemática e ele foi apropriado por muitas revoltas de escravos, dizendo que ‘o Nabuco está por nós’, ‘o Nabuco vem nos proteger’. Então ele era uma figura que chegou até a camada mais baixa. Os próprios escravizados tinham a imagem dele utilizada para justificar muitas dessas revoltas”, contou.
Colóquio
Maria Helena Machado participou como palestrante do Colóquio "Histórias e Acervos do Abolicionismo e do Pós-Abolição: Biografias e Ativismos”, realizado nos dias 18 e 19 de agosto na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Sua participação na mesa “O papel das mulheres na luta pelo fim da escravidão”, que aconteceu no dia 19, foi escolhida graças à sua vasta experiência na história social da escravidão, abolição e pós-emancipação, com ênfase em gênero e maternidade na escravatura, processo social da abolição, naturalistas, representação visual e teorias raciais no século XIX.
Categoria Educação e Pesquisa
Tags: Pernambuco
