Nas últimas semanas, as buscas por informações sobre misoginia mais do que triplicaram na internet. Esses discursos de ódio contra as mulheres podem ser criminalizados pelo Congresso. Para especialistas, faltam regras para responsabilizar as redes sociais.
A trend "Caso ela diga não", que simulava uma reação violenta se uma mulher negasse o pedido de um homem, é um sintoma de movimentos que vêm crescendo há tempos nas redes sociais. Discursos antifeministas e de ódio online, engajados por algoritmos que fortalecem grupos da chamada machosfera, como o movimento Redpill.
“Isso é algo que nós vimos esse aumento em vários outros países… aqui nos Estados Unidos, na Turquia… É uma estratégia muito da extrema-direita, exatamente para que mulheres continuem com seus papéis de gênero restritos a esses papéis casa, ter filhos, trabalhar, mas trabalhar para ganhar menos’, explica Letícia Marteleto, professora de Sociologia e Demografia da Universidade da Pensilvânia (EUA).
“Esse tipo de conteúdo tem ganhado cada vez mais espaço nas redes sociais, principalmente em virtude do modelo de negócio desse tipo de plataforma, em que aqueles conteúdos que viralizam mais e que recebem maior engajamento acabam ganhando maior visibilidade e maior alcance. Isso tem um impacto muito nocivo. É como se a gente estivesse naturalizando esse tipo de discurso”, pontua Fernanda Rodrigues coordenadora de pesquisa do IRIS.
Um levantamento do Instituto Nexus mostrou que as buscas por informações sobre misoginia cresceram 257% de fevereiro para março. Uma das reivindicações é a criminalização da misoginia, de ódio ou a aversão às mulheres.
Nesta terça-feira (17), o plenário do Senado pode analisar um projeto de lei que insere essa prática entre os crimes de preconceito ou discriminação contidos na Lei do Racismo. No caso da trend que viralizou nos últimos dias, os autores já podem ser indiciados em crimes como incitação à violência ou apologia ao crime. Para especialistas, não basta focar no usuário das redes.
“Claro que, novamente também, a responsabilidade não está somente nas plataformas, mas infelizmente a gente tem visto que elas estão servindo como um espaço fundamental de articulação e disseminação desse tipo de pensamento. Então é preciso que a gente pense em uma regulação, mas também que as plataformas proativamente tomem as medidas necessárias para evitar que esse tipo de postagem continue circulando”, defende Fernanda Rodrigues.
“Não só a regulamentação das redes sociais, etc., mas também o que a gente está ensinando para os nossos meninos e meninas nas escolas, em casa, é extremamente importante também. É algo que sim traz, dá nome às desigualdades, às discriminações, às violências que as mulheres passam com maior frequência do que os homens”, lembra Letícia Marteleto.
Os registros de violência contra as mulheres vêm aumentando a cada ano. Em 2025, foram 1.547 feminicídios: 4 por dia. Casos de agressão contra as mulheres podem e devem ser denunciados pelo Ligue 180.
Sobre a trend "Caso ela diga não", o governo deu 5 dias para o TikTok explicar as medidas tomadas para evitar conteúdos misóginos. Esse prazo termina nesta segunda-feira (16). Em nota, a rede social disse que os vídeos violam as diretrizes da plataforma e que foram retirados do ar mesmo antes do contato da Polícia Federal. Afirmou que a prioridade é a segurança da comunidade e que seguirão colaborando com as autoridades.
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