Arte de 58,9 metros quadrados retrata mitos do povo Huni Kuin e estará aberta à visitação, a partir deste domingo, no hall do Centro de Exposições Eduardo Galvão, no Parque Zoobotânico do MPEG.
Os seis integrantes do Mahku e, ao fundo, os painéis Yube Inu, Yube Shanu e Kapewë Pukenibu. Foto: Luan Lima Mesquita/Carmo Johnson Projects
O mural integra a programação cultural no Museu Goeldi para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá na capital paraense, a partir da próxima segunda-feira (10/11). Concebida como um marco cultural e simbólico da presença dos povos indígenas nas discussões globais sobre o clima, a pintura também representa o compromisso do MPEG, desde a sua fundação, em 1866, com o diálogo intercultural, com a pesquisa colaborativa junto a comunidades indígenas e com a proteção do bioma amazônico, integrando conhecimentos científicos e tradicionais. A obra foi possível a partir da articulação da galeria Carmo Johnson Projects, que representa o Mahku, e conta com o patrocínio da Bloomberg Philanthropies e o apoio do Instituto Peabiru.
Ibã Huni kuin sendo recebido pelo diretor do Museu Goeldi, Nilson Gabas Júnior. Foto: Cabron Studios/Carmo Johnson Projects.
Diretor do MPEG agradece presente
Ibã Huni kuin (ou Isaías Sales, na segunda língua) é professor, pesquisador, antropólogo e artista de uma aldeia do Acre. Ele percebeu que o uso da sua primeira língua estava diminuindo, que os mais novos não sabiam mais os cantos dos antepassados e que a história de seu povo, baseada na oralidade, estava ameaçada. “Os nossos conhecimentos são da memória, não tem escritos. Eu já vinha acompanhando as histórias do meu pai, por meio da música e comecei a gravar (os cantos do) meu pai”, disse Ibã, completando que essas gravações se transformaram em um livro escrito em três idiomas. No entanto, segundo ele, a tradução não dava conta de retratar os cantos Huni Kuin, não havia palavras correspondentes. Daí, surgiu a ideia de pintar e de ensinar os mais jovens a retratarem essas músicas, o que se transformou no coletivo Mahku, fundado em 2012, cujos trabalhos foram expostos em eventos no Brasil e em outras parte do mundo.
Os mitosA pintura exposta do Museu Goeldi apresenta dois mitos centrais da cosmologia Huni Kuin: o Kapewë Pukenibu, também conhecido como o mito do jacaré-ponte (Kapewë Pukeni), uma narrativa ancestral que relata a origem e a travessia dos Huni Kuin, um povo em movimento entre continentes, em busca de sementes, moradia, conhecimento e terra. Por meio de cantos, é contada a história dessa jornada, onde o povo encontra um jacaré que, em troca de alimento, oferece o próprio corpo como ponte para que o povo atravesse para o outro lado. Esse episódio simboliza o ato de criar conexões entre povos, mundos e dimensões, entre o visível e o invisível.
O mural também evoca o mito Yube Inu, Yube Shanu, que narra o surgimento da ayahuasca, representada pela mulher-serpente do cipó, figura central na cosmologia Huni Kuin. Por meio de cores vibrantes e grafismos tradicionais kenê, a obra traduz os cantos e visões do nixi pae (ayahuasca), expressando temas de cura, transformação e sabedoria. Essa realização marca mais um capítulo do diálogo entre arte, espiritualidade e ancestralidade, reafirmando o papel do Mahku como ponte viva entre mundos — indígena e não indígena, mítico e contemporâneo.
Os artistas do coletivo Mahku
Ibã Huni Kuin (Isaías Sales, 1964, Tarauacá, Acre) – Ibã Huni Kuin é txana, mestre dos cantos na tradição do povo Huni Kuin. Tornou-se professor na década de 1980 e passou a unir os saberes tradicionais de seu pai, Tuin Huni Kuin, aos conhecimentos ocidentais, pesquisando a escrita da tradição junto de seus alunos. Ingressou na Universidade Federal do Acre (Campus Cruzeiro do Sul) em 2008 e, com seu filho Bane, criou o projeto Espírito da Floresta, que deu origem ao MAHKU – Movimento dos Artistas Huni Kuin.
Cleiber Bane (1983, Jordão, Acre) – Cleiber Bane é artista e membro fundador do MAHKU – Movimento dos Artistas Huni Kuin, criado em 2012. Suas obras transformam em imagem os cantos tradicionais Huni Meka, que orientam os rituais de ayahuasca e evocam Yube, a anaconda cósmica, mestre do Nixi Pae, além de entidades da floresta. Ele participa ativamente da consolidação do grupo no cenário internacional da arte contemporânea.
Acelino Sales (1975, Jordão, Acre) – Acelino Sales vive e trabalha em Jordão, Acre. Membro do Mahku desde sua fundação, participou da primeira ação coletiva em 2012, quando o grupo pintou a Secretaria de Educação e Cultura de Jordão. Suas pinturas rompem com a lógica física e pictórica tradicional, apresentando visões onde elementos da floresta e do cosmos se fundem em luz e movimento. Participou de importantes exposições, como Histoire de voir (Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris), Mirações (MASP, 2023), Coreografias do Impossível (35ª Bienal de São Paulo, 2023) e da pintura mural de grande escala na fachada do pavilhão central da 60ª Bienal de Veneza – Stranieri ovunque (Estrangeiros por toda parte).
Yaka Huni Kuin (1996, Jordão, Acre) – Yaka Huni Kuin é artista e aprendiz da floresta, nascida na Aldeia Chico Curumin, Rio Jordão, Acre. Filha de Ibã Sales Huni Kuin, também é cofundadora do coletivo Kayatibu, que reúne jovens Huni Kuin em atividades de música e dança, preservando e reavivando saberes e narrativas míticas. Participou de diversas exposições nacionais e internacionais, entre elas: Ka’a Body: Cosmovision of the Rainforest (Paradise Row, 2021–2022), Moquém Surarî (MAM-SP, 2021), Mirações (MASP, 2022), Les Vivants (Fondation Cartier, Lille, 2022), Coreografias do Impossível (35ª Bienal de São Paulo, 2023), Mupotyra: arqueologia amazônica (MuBE, 2024–2025) e Amazònies: El futur ancestral (CCCB, Barcelona, 2024–2025). Em parceria com sua irmã Rita Huni Kuin, realizou a mostra Entre mundos (Centro Cultural do Cariri, Ceará).
Kásia Mytara (1962, Goiânia, Goiás) – Kásia Mytara é artista Karajá cuja produção explora temas de identidade indígena, resistência, feminilidade, genealogia e cura. Trabalha com cerâmica e pintura, sendo também integrante do Mahku – Movimento dos Artistas Huni Kuin. No coletivo, traduz e pinta os cantos e mitos Huni Meka, originados de visões espirituais vivenciadas em cerimônias de ayahuasca. Casada com Ibã Sales Huni Kuin, fundador e líder do MAHKU, Kásia estabelece uma ponte entre as culturas Karajá e Huni Kuin, expandindo o alcance simbólico e estético do movimento.
Texto: Andréa Batista/Museu Goeldi com informações de press release da Carmo Johnson Projects.




