Uma pesquisa nacional sobre violência contra a mulher mostra que muitas das entrevistadas, que sofreram algum tipo de agressão doméstica ou familiar, não se veem como vítimas. O estudo foi divulgado pelo Data Senado, em parceira com o Observatório da Mulher contra a Violência. Mais de 20 mil mulheres foram ouvidas.
A Fernanda, durante 10 meses, fez tratamento psicológico para se recuperar de um transtorno do estresse pós-traumático após ela ser vítima de importunação sexual cometida por um amigo da família.
“Ele passou a mão nas minhas costas e apalpou minhas nádegas. Eu fiquei sem reação e quando eu olhei para a cara dele, ele esboçou um sorriso e aquilo me deixou desconcertada”, conta a empresária Fernanda Alves. O caso foi em 2022, quatro anos após a lei de importunação sexual entrar em vigor no Brasil.
O agressor de Fernanda foi condenado apenas no ano passado. “Não foi ‘só isso’. É tudo que acontece depois com você. Eu tive dificuldade de relacionar com meu marido porque quando ele me tocava, eu travava todo o meu corpo. Eu tinha pesadelos, eu tinha pensamentos. Eu tive, eu tive pânico”, relata Fernanda.
Os casos de importunação sexual são apenas uma parcela das violências sofridas pelas mulheres no país. De acordo com o estudo feito pelo Senado Federal. O perigo, na maioria das vezes, está dentro da própria casa da vítima.Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher mostra que uma em cada três brasileiras viveu alguma situação de violência doméstica nos últimos 12 meses. Essa proporção aumenta em estados como Acre, onde o índice é de 73%, e Maranhão, com 71%. Em todo o Brasil, 12% das mulheres responderam que ainda moram com o agressor. Em 62% dos casos, o agressor é o marido ou companheiro da vítima.
Segundo a professora de sociologia da UFRJ Felícia Picanço, “a violência, ela não ocorre sem estar assentada num regime de valores morais e normas de gênero. Em relação a valores morais, de um modo geral, a gente tem no Brasil uma tradição histórica de violência e da violência como uma forma de resolução de conflitos. Então, isso é um ponto central”.
A dificuldade da mulher em se reconhecer como vítima também foi abordada pelo estudo. Apenas 4% disseram ter sofrido violência, enquanto 29% foram vítimas de agressão, mas não souberam reconhecer os abusos, que podem ocorrer de diferentes maneiras.
“A violência que passa também na violência econômica. Da violência psicológica se escalona para outros tipos de violência, como a própria violência física, que começa também, muitas vezes sutil e começa com pequenas agressões cotidianas, com um tapa, com um empurrão. Então, a partir do momento em que você se sentiu empurrada e isso já está entrando num processo de violência e o ciclo de violência vai se escalando cada vez mais”, afirma Felícia Picanço.
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