Manuais técnicos e roteiros pedagógicos detalham ações de monitoramento e planos de resposta para deslizamentos de terra, inundações, incêndios, secas e ondas de calor
Quando desastres socioambientais acontecem, traumas e aprendizados dividem espaço na rotina de comunidades atingidas. O medo de novos estragos faz com que qualquer indício de chuva, incêndio ou de outro evento extremo seja acompanhado com apreensão. Já em contextos de ausência de memórias das mudanças no território e de desastres passados, a percepção do nível de gravidade das situações de alto risco (cada vez mais frequentes, diante da emergência climática) pode chegar tarde demais. Em ambos os cenários, uma pergunta é onipresente: “como agir em um momento de emergência?”. É por isso que os registros de ocorrências antigas, o conhecimento quanto aos potenciais abrigos temporários e a cartografia social – que envolve o mapeamento do território orientado por um olhar da comunidade quanto aos riscos, caminhos e lugares seguros – são elementos presentes nos Protocolos de Educação Ambiental em Cenários de Eventos Extremos.
Para tornar educadores, gestores públicos e populações vulnerabilizadas mais preparados para lidar com cenários climáticos adversos, os protocolos combinam ações preventivas, orientações de condutas durante os desastres, medidas em resposta às ocorrências e avaliação dos procedimentos adotados em momentos de crise, de modo a aprimorar esses protocolos para desastres futuros. Assim, em três tempos, os protocolos reconhecem que as ações de educação ambiental e preparação para eventos extremos são um processo contínuo e em constante aperfeiçoamento. Os protocolos estão organizados em cinco guias voltados a riscos decorrentes dos seguintes eventos climáticos extremos: secas, ondas de calor, incêndios, deslizamentos de terra e inundações, enchentes e alagamentos.
Elaboradas com base na articulação entre conhecimentos científicos e comunitários, as diretrizes resultaram deste encontro realizado em junho de 2026 entre pesquisadores do Cemaden Educação, Departamento de Educação Ambiental e Cidadania (DEA) do Ministério do Meio Ambiente e outras entidades. As recomendações se estruturam em torno de quatro dimensões de proteção: conhecimento do risco, monitoramento cidadão, fluxos de comunicação e capacidade de resposta. O objetivo das publicações é tanto servir como ponto de partida para cada comunidade estruturar as medidas que façam sentido para a realidade de seu lugar quanto complementar procedimentos previamente fornecidos por autoridades e gestores locais.
O guia de diretrizes gerais para educação ambiental em eventos extremos estabelece as bases conceituais de preparação e mobilização pedagógica, com destaque para a organização de rodas de conversa e formação comunitária. O material propõe uma abordagem preventiva estruturada para capacitar moradores a reconhecer perigos locais, agir preventivamente e organizar comitês internos antes da ocorrência de desastres climáticos.
Trecho de um dos protocolos elaborados para orientar ações em situações de emergência diante de eventos extremos.
O manual direcionado para a mitigação de deslizamentos de terra aborda os riscos geológicos em encostas, orientando o desenvolvimento de mapeamentos participativos e cartografias sociais construídas pela própria vizinhança. Entre as medidas recomendadas, o conteúdo detalha a formação de núcleos comunitários de autoproteção, a implementação de estações de monitoramento em escolas, a simulação prática de rotas de fuga e o planejamento logístico para a identificação de abrigos seguros.
No cenário de inundações, enchentes e alagamentos, as diretrizes apontam o ambiente escolar como o polo de articulação e referência de segurança para o território. As estratégias preventivas envolvem a capacitação de voluntários para a medição do nível dos rios, a utilização da plataforma digital MonitoraEA para vigilância do entorno e o estabelecimento de comitês de preparação com planos de ação integrados e fundos locais de emergência.
Para o enfrentamento de incêndios, as orientações priorizam o desenvolvimento de Planos de Manejo Integrado do Fogo e de redes de vigilância comunitária descentralizadas. O material também apresenta ferramentas de suporte ao monitoramento hídrico, campanhas educativas direcionadas às escolas e a integração de ações com as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) do Sistema Único de Saúde (SUS) para suporte físico e psicológico.
O guia voltado às secas aborda as vulnerabilidades hídricas sob uma perspectiva de equidade, estimulando o protagonismo de grupos expostos nos fluxos de tomada de decisão. A publicação instrui sobre o acompanhamento de indicadores naturais do ecossistema, o controle sanitário de doenças decorrentes da estiagem prolongada e a implementação de tecnologias hídricas sociais, como cisternas e banheiros secos.
O protocolo para ondas de calor está voltado a ações de adaptação de infraestruturas, conforto térmico, adequação de rotinas de alimentação e horários de atividades de estudo e trabalho, entre outros. O monitoramento contínuo das condições locais de temperatura e umidade é combinado com o mapeamento de áreas mais vulneráveis e com a proposição de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), como a arborização urbana, para a criação de refúgios climáticos.
Por fim, o roteiro para diálogos autogestionados fornece orientações práticas para que grupos locais organizem encontros de forma independente. O material detalha metodologias para a auto-organização, divisão de responsabilidades comunitárias e elaboração de planos de contingência, bem como de protocolos locais, promovendo a autonomia dos territórios na construção de resiliência climática.
Canais de acesso: Os guias educativos e protocolos de autoproteção para cada cenário de risco estão disponíveis de forma gratuita para download e consulta pública nos sites do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Centro de Educação e Cooperação Socioambiental (CECSA-SP).



