Experiência brasileira em conformidade cooperativa ganha destaque em seminário internacional promovido pelo BID na Guatemala.
A Receita Federal teve participação de destaque no Seminário Regional sobre Cumplimiento Tributario Cooperativo en América Latina y el Caribe, promovido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e sediado pela Superintendencia de Administración Tributaria de Guatemala (SAT). O evento, realizado em Antígua Guatemala (Guatemala) nos dias 22 e 23 de outubro de 2026, reuniu administrações tributárias, organismos internacionais e grandes empresas da América Latina e Caribe para debater estratégias de fortalecimento da conformidade cooperativa e da segurança jurídica tributária na região.
Representando a Receita Federal, o auditor-fiscal Flávio Vilela Campos, Coordenador Especial de Maiores Contribuintes, participou de três painéis centrais da programação, compartilhando a experiência brasileira na construção e implementação do Programa Confia, hoje reconhecido como uma das principais referências mundiais em conformidade cooperativa.
O encontro teve como objetivo promover o intercâmbio de experiências entre administrações tributárias, fomentar a cooperação regional e discutir modelos de relacionamento baseados em transparência, confiança justificada, prevenção de riscos fiscais e diálogo permanente entre Fisco e contribuintes. O BID destacou o papel estratégico desses programas para o fortalecimento da segurança jurídica e da gestão tributária moderna na região.
Construindo um programa de conformidade cooperativa
Na sessão dedicada à estratégia institucional das administrações tributárias, o Brasil apresentou a trajetória de construção do Programa Confia, abordando os elementos essenciais necessários para o desenvolvimento de um programa robusto de conformidade cooperativa.
Foram destacados aspectos como:
- A mudança cultural e de conduta necessária dentro da administração tributária e pelos contribuintes;
- A instituição de fóruns de diálogo para favorecer a construção de relações baseadas em confiança e transparência;
- A importância de modelo robusto de coleta de informações e gestão de riscos tributários como elementos centrais do modelo;
- A mudança de foco para estrutura de governança tributária dos contribuintes, conhecido como Marco de Controle Fiscal;
- O desenvolvimento estrutura interna robusta para gestão dos maiores contribuintes pela Administração Tributária e de mecanismos adequados de governança interna;
- A criação de um ambiente normativo favorável para sustentar o Programa;
- A adoção de modelos de tratamento e resposta proporcionais ao perfil de risco dos contribuintes, com regime de sanções tributárias distintas;
- A importância dos fóruns permanentes de diálogo entre administração tributária e setor privado.
A experiência brasileira demonstrou que o sucesso de programas cooperativos depende não apenas de mudanças normativas, mas especialmente da evolução institucional e do fortalecimento da relação entre Fisco e contribuintes.
Marco de Controle Fiscal: da auditoria transacional à governança tributária
Em outro painel, dedicado à evolução dos modelos de controle tributário, a Receita Federal do Brasil apresentou a experiência brasileira na avaliação dos Marcos de Controle Fiscal (MCF), demonstrando o processo de transição de modelos tradicionais de auditoria transacional para abordagens focadas em governança e gestão de riscos tributários.
A apresentação destacou:
- O papel do questionário de autoavaliação do contribuinte;
- A importância dos planos de trabalho conjuntos;
- A transparência na identificação e gestão de riscos fiscais;
- A necessidade de estruturas sólidas de governança corporativa;
- A demonstração da efetividade dessa governança pelas respostas e documentos apresentados no questionário de autoavaliação.
Especial destaque foi dado à norma ABNT NBR 17.301, utilizada como referência para estruturação dos sistemas de compliance das organizações. A norma permitirá a certificação dos contribuintes e constitui importante instrumento de avaliação da maturidade de seus mecanismos de governança e controle interno, contribuindo para relações mais transparentes e previsíveis com a administração tributária.
Avaliação de resultados e indicadores do Programa Confia
No terceiro painel, dedicado à avaliação de resultados dos programas de conformidade cooperativa, a Receita Federal apresentou o trabalho em desenvolvimento para criação de indicadores estratégicos do Programa Confia. A iniciativa é conduzida pelo Receita Federal, sob a liderança do auditor-fiscal Marcos Gouveia, em parceria com o BID e a Universidade de Viena, com base em metodologia internacional de análise de custo-benefício para programas de conformidade cooperativa.
Também foram compartilhados resultados já observados no âmbito do programa, incluindo:
- Resolução antecipada de questões tributárias complexas;
- Construção de entendimentos institucionais entre Fisco e contribuintes;
- Redução de potenciais litígios;
- Maior previsibilidade jurídica; Soluções consensuais relacionadas a certidões e regularidade fiscal;
- Fortalecimento da conformidade tributária voluntária.
Participação ativa das empresas
Um dos diferenciais do seminário foi a ampla participação do setor privado, refletindo a essência dos programas de conformidade cooperativa.
Entre os destaques esteve a participação da CFO da Repsol Sinopec Brasil, Gilberta Lucchesi, que apresentou a visão empresarial sobre o Programa Confia. Durante sua exposição, foram destacados os benefícios concretos da construção conjunta do modelo entre administração tributária e contribuintes, evidenciando ganhos em segurança jurídica, redução de incertezas e melhoria do ambiente de negócios.
Também participaram representantes de importantes empresas multinacionais, como Repsol, Anglo American e Huawei, CIAT, além de autoridades tributárias do Peru, Chile, Equador, Argentina, Uruguai, Guatemala, Bolívia, Panamá, República Dominicana, Colômbia e Costa Rica.
Brasil como referência regional
A presença da Receita Federal em três dos principais painéis do evento reforça o protagonismo do Brasil na agenda internacional de conformidade cooperativa.
O Programa Confia vem sendo acompanhado com grande interesse pelas administrações tributárias da região, servindo como referência para países que estão desenvolvendo ou aperfeiçoando seus próprios programas. O compartilhamento das experiências brasileiras contribui para a disseminação de boas práticas e para a construção de uma agenda regional baseada em transparência, governança, gestão de riscos e cooperação entre administrações tributárias e contribuintes.
Ao final do encontro, ficou evidente que a conformidade cooperativa se consolida como uma das principais tendências da administração tributária moderna, e que a experiência brasileira continuará desempenhando papel relevante nesse processo de transformação institucional na América Latina e no Caribe.



