Seminário da RBSO discute dimensões da Segurança do Trabalho no cenário brasileiro atual
Pesquisadores abordam interconexão trabalho, saúde e meio ambiente, influência das relações de poder e contribuições da Ergonomia Compartilhe: Compartilhe por Facebook Compartilhe por Twitter Compartilhe por LinkedIn Compartilhe por WhatsApp link para Copiar para área de transferência
Publicado em
05/06/2025 17h47
Editores da RBSO participam de seminário realizado no auditório da Fundacentro, em São Paulo. Na mesa de abertura, da esquerda para direita: Eugênio Paceli Hatem Diniz, Raoni Rocha Simões, José Marçal Jackson Filho, Carlos Machado de Freitas e Manoela Gomes Reis Lopes.
Olhar a Segurança do Trabalho por meio de uma perspectiva mais ampla é ainda uma necessidade, embora muitas mudanças possam ser observadas ao longo dos últimos anos. Esse foi um dos aspectos recorrentes durante o seminário "Desenvolvimentos e Perspectivas da Segurança". Realizado em 27 de maio de 2025, na sede da Fundacentro em São Paulo/SP, o evento marcou o encerramento das atividades comemorativas do cinquentenário da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO).
Apesar da relevância, é escasso o debate sobre o assunto tanto na Fundacentro, quanto nos estudos publicados na RBSO. “O tema da Segurança, que justificou a criação desta fundação, em 1967, tem sido muito pouco trabalhado”, observa o editor executivo da revista, José Marçal Jackson Filho.
Para o presidente da Fundacentro, Pedro Tourinho, é importante fomentar o debate e os estudos na área. “É um tema que a gente precisa fortalecer na agenda da produção científica da Fundacentro, da produção científica no campo da Saúde e Segurança no Trabalho”, avalia.
José Marçal considera que o novo momento da Segurança, com o advento da chamada Segurança 2, ou Segurança diferente, ou Engenharia de Resiliência, confere ainda mais peso à discussão. “Postula uma outra perspectiva para a Segurança que foge do padrão tradicional, que era voltado sobretudo à investigação de acidentes, a uma instância de controle do comportamento nas instituições, passando por uma outra perspectiva, de suporte às atividades dos trabalhadores nos diversos setores e que tem o trabalho como cerne da sua prática e da pesquisa”, acrescenta. As reflexões criticam a política do período da ditatura militar brasileira, momento da criação da Fundacentro, marcada pela promoção do ato inseguro, que responsabilizava os trabalhadores pelos acidentes.
Frente a essas considerações, o seminário contou com apresentações alicerçadas em três artigos publicados no dossiê RBSO 50 anos. O debate final foi mediado pela editora associada da revista e professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Manoela Gomes Reis Lopes.
Acidentes ampliados
As avaliações dos acidentes industriais ampliados a partir da década de 1980 revelam o quão fundamental é para a Segurança olhar para além dos muros das plantas industriais. É o que observa o palestrante Carlos Machado de Freitas, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) e editor associado da RBSO. A análise de acidentes ampliados trazida no ensaio Acidentes ampliados - mais do que um conceito, uma história de luta que precisa ser atualizada, do qual é um dos autores, realça mudanças no perfil desses acidentes em relação aos observados no século XIX.
Machado destaca a necessidade de analisar esses acidentes sem os desassociar da interconexão trabalho, saúde e meio ambiente. Isso porque os impactos vão além dos acidentes industriais típicos, que afetam apenas os trabalhadores das plantas industriais. Estendem-se no espaço e no tempo, alcançando a população do entorno e o meio ambiente. As consequências se prolongam no médio e longo prazo, afetando saúde, condições de trabalho, formas de vida e sustento, o que demanda considerar também o cenário futuro pós-evento.
Como exemplos, o pesquisador cita acidentes como o da usina nuclear de Chernobyl (Ucrania, 1986), da plataforma petrolífera Piper Alpha (Escócia, 1988), da mina 18 em Maceió (2023), da barragem de Fundão e do Córrego do Feijão (ambos em Minas Gerais, 2015 e 2019, respectivamente), entre outros mencionados no ensaio. Todos são considerados desastres industriais e ambientais que afetaram a vida e o trabalho de centenas de pessoas. Esses acidentes são expressões de falhas sistêmicas, ou seja, envolvem diversas camadas que abarcam disfunções organizacionais e tecnológicas, mas também sistemas sociais e o próprio modelo econômico vigente.
São diversos aspectos somados que potencializam ocorrências de acidentes, agravam os efeitos e tornam a análise e a prevenção ainda mais complexas. “A gente tem uma fronteira muito fluida que nos obriga a trabalhar os temas relacionados à Segurança de forma mais ampla”, frisa Machado. “Isso me obriga a pensar a Segurança numa perspectiva mais ampla do que aquela tradicional em que eu próprio fui formado e que a gente pensava que era Segurança, muito ligada às instalações. E esse é um desafio que certamente se coloca para todos nós”, conclui.
Relações de poder
A palestra de Raoni Rocha Simões também evidenciou que muitos acidentes ampliados originam de falhas sistêmicas e organizacionais, e não de erros ou violações de regras de trabalhadores, como a princípio se poderia presumir. É o que concluíram avaliações de acidentes pontuadas pelo pesquisador da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e editor associado da RBSO. Entre os exemplos, destaca o acidente de Chernobyl, momento histórico em que surge a noção de cultura de Segurança.
Simões traz para o centro da reflexão as relações de poder presentes nas organizações, como influem na cultura de segurança e como podem ou não evitar acidentes. No ensaio Cultura de Segurança e relações de poder nas organizações, do qual é coautor, observa que, a depender do grau de engajamento das lideranças e dos executantes, podem surgir diferentes culturas de segurança. Entre elas, a Integrada, que mesmo considerada a ideal por articular conhecimentos de gestão e operação na construção da Segurança, coloca algumas questões que são depuradas no artigo.
A primeira envolve o modo como os conflitos e as contradições entre as regras formais e informais do trabalho são tratados. Na lógica contemporânea das organizações, essas situações são malvistas e apagadas, limitando questionamentos, trocas, conexões entre gestão e operação. Restringem-se assim possibilidades de aprendizagem do coletivo de trabalhadores. Frente a esse silêncio organizacional, impedidos de questionar, muitas vezes os trabalhadores operacionais caminham para a violação de regras, criando diversas culturas de segurança, o que leva à segunda pergunta: Qual o limite para desobedecer a uma regra com segurança?
“Erros e violações vão acontecer e o problema não é que eles apareçam, mas o que fazer com esses erros e violações”, observa o pesquisador. É preciso entender o problema que está por trás, se é a própria regra, que conflita com a atividade real, ou o contexto em que ocorre. Esse ponto se conecta com questionamentos relativos à influência das relações de poder e dominação no desenvolvimento da cultura de Segurança. O exercício do poder para lidar com contradições, erros e violações pode ser manifesto, oculto ou, ainda mais sutil, como ideológico. E compreender esses limites contribui para avançar no caminho de uma cultura integrada.
Parte fundamental dessa lógica é o sistema de retorno de experiência, ou seja, o conjunto de métodos, dispositivos e práticas que buscam aproximar a gestão da operação para discutir o trabalho real e gerar aprendizado a partir disso. Além de oferecer espaço para que os conflitos entre as regras e a realidade apareçam e sejam discutidos coletivamente, valoriza a experiência dos trabalhadores e estimula sua necessária autonomia.
Contribuição da Ergonomia
Compreender o problema por trás do erro relacionado a acidentes é também um dos pontos da palestra de Eugênio Paceli Hatem Diniz, tecnologista da Fundacentro e editor associado da RBSO. Coautor do ensaio A contribuição da Ergonomia para a Segurança no trabalho, Paceli observa dois cenários: processos de alto risco com elevadas taxas de acidentes; e sistemas ultrasseguros com ótimos indicadores. Em ambos, a Segurança parece ter alcançado o limite, seja por parecer impotente para gerar mais prevenção, seja porque parece impossível avançar frente a tão alta eficácia já conquistada.
Superar esses cenários exige que as análises no campo da Segurança utilizem métodos e concepções adequados para alcançar a dimensão subjetiva do erro humano, essencial para entender os acidentes. Nesse sentido, o artigo discute as contribuições da Ergonomia no campo da Segurança.
Ao considerar a experiência do trabalhador e assimilar o fator humano como fonte de confiabilidade, a análise ergonômica do trabalho dispõe de ferramentas e métodos que permitem compreender e intervir nos modelos de organização e gestão. Favorece, entre outras questões, a criação de espaços de discussão e compreensão da posição do trabalhador nas tomadas de decisão e na gestão de riscos feita por ele. Assim, permite acessar a parte invisível da atividade, isto é, o processo cognitivo, fundamental para entender o trabalho, o acidente ou incidente e propor melhorias.
A Ergonomia ajuda a avançar mesmo em sistemas de produção com baixa taxa de acidentes porque permite analisar e identificar os incidentes menores e sinais fracos que se manifestam em situações normais de trabalho. Para tanto, Paceli pontua a necessidade de criar espaços para recuperar a experiência dos trabalhadores, que permitam discutir de fato o trabalho, o que ainda é um desafio. A contribuição é também para uma atuação proativa de Segurança dos processos produtivos, em oposição ao cenário atual, preponderantemente reativo.
O tecnologista frisa que, embora seja capaz de apontar problemas e propor soluções, a Ergonomia tem atuação limitada, principalmente devido ao modelo econômico vigente, com ampliação da flexibilização das relações de trabalho, reiterando a fala de Raoni Simões.
Seminário "Desenvolvimentos e Perspectivas da Segurança"
O evento completo, realizado no dia 27 de maio, está disponível no canal da Fundacentro no YouTube.
Leia os ensaios discutidos nas palestras:
Acidentes ampliados - mais do que um conceito, uma história de luta que precisa ser atualizada
Cultura de Segurança e relações de poder nas organizações
A contribuição da Ergonomia para a Segurança no trabalho
Texto e fotos:
Karina Penariol Sanches
Arte:
Vanessa Aparecida Ribeiro da Silva
Categoria Trabalho, Emprego e Previdência
Tags: #RBSO#SegurançaNoTrabalho#AcidentesAmpliados#AcidentesIndustriaisAmpliados#Ergonomia


