O uso da inteligência artificial em campanhas políticas envolve debates complexos. Para se adequar à evolução da tecnologia, o Tribunal Superior Eleitoral alterou algumas regras para as eleições desse ano. Mas pesquisadores ainda acreditam que as medidas não são suficientes. Veja em mais uma reportagem da série Seu voto, sua voz.
Essa é a Gaitana. Uma personagem indígena de pele azul criada por inteligência artificial que disputou as eleições para o Congresso da Colômbia neste ano. A ideia era que o avatar representasse uma comunidade digital, que orientaria seus votos no parlamento. Se ganhasse, quem assumiria de fato a função legislativa seriam seus criadores. Gaitana não se elegeu, mas a iniciativa dá uma dimensão de como a tecnologia pode influenciar a política.
No Brasil, existem muitos casos de personagens super realistas feitos por inteligência artificial falando de política. Na maioria das publicações, esses perfis sintéticos não traziam qualquer sinalização de serem produzidos com tecnologia. E ainda mentiam sobre políticos ou instituições democráticas. O cidadão nem sempre consegue perceber as manipulações feitas na internet e acaba desconfiando de qualquer informação que chegue até ele.
Para ajudar a resolver esse tipo de problema, o papel da ciência é fundamental e também dos grupos de pesquisa. E uma das referências do Brasil está na Universidade Federal do Rio de Janeiro: o NetLab. Os estudiosos estão preocupados com a popularização da IA e acreditam que o impacto deve ser bem maior nessa eleição do que foi em 2024.
Para Bruno Mattos, coordenador de projetos e pesquisas do NetLab da UFRJ, “a inteligência artificial que a gente tem hoje não é a mesma de 2024, definitivamente, que tampouco era mesmo de 2022. Você pode usar a própria IA para roteirizar e gerar o conteúdo, que fica pronto em poucos minutos. Então, a capacidade que isso tem de impactar na opinião pública, de influenciar num processo eleitoral é muito grande e a gente ainda não experimentou isso aqui”.
“A desinformação, claro, é um problema que a inteligência artificial alavanca enormemente. Mas como a gente não tá conseguindo dar as respostas, não só de fiscalização, como de sanção e como de mitigação do problema, eu temo que a gente naturalize e comece a viver um mundo onde a gente já não consegue mais distinguir o que que é real e o que que não é real”, afirma Marie Santini, fundadora e diretora no NetLab/UFRJ.
A Justiça Eleitoral tem se atualizado a cada pleito na tentativa de acompanhar a velocidade da tecnologia. Para as eleições de outubro, por exemplo, foram criadas regras específicas para lidar com a inteligência artificial, como a proibição total de deepfakes, que falsificam voz, vídeos ou imagens.
O uso de IA em campanhas é legítimo desde que venha com um aviso explícito ao eleitor. É proibido qualquer conteúdo manipulado digitalmente que altere áudio, imagem ou vídeo para simular a fala ou ação de um candidato que não ocorreu na realidade. Já nas 72 horas que antecedem a votação e nas vinte e quatro horas após o pleito, a regra é mais rígida e fica proibida a publicação de conteúdos produzido por IA. Os sistemas de inteligência artificial também são proibidos de recomendar candidaturas aos usuários.
Apesar dos avanços, os órgãos de controle ainda devem ter dificuldade para punir e retirar os conteúdos maliciosos na velocidade necessária. As grandes plataformas digitais também poderiam criar mecanismos de segurança melhores, para que todo conteúdo manipulado fosse reconhecido pelo usuário como um conteúdo de IA.
De acordo com a coordenadora de pesquisas do NetLab/UFRJ, Débora Sales, “as pessoas têm muito medo de regulamentar plataformas e e o que acontece nessas redes sociais porque a gente tem uma defesa irrestrita da liberdade de expressão. O que acontece hoje em dia é que a gente não sabe o que está sendo moderado, nem por quê. No contexto eleitoral, isso é ainda mais problemático, porque as plataformas têm hoje o poder de definir quem vai ficar no ar e quem não vai ficar no ar”.
“A gente não tem uma marcação, uma codificação, uma certificação dos conteúdos do que é IA, e a gente não tem transparência, por outro lado, para observar o que está circulando na rede, para poder entender, diagnosticar o fenômeno e entender as consequências disso”, explica Marie Santini.
Nós procuramos o Tribunal Superior Eleitoral, mas a instituição não quis se manifestar.
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