Os recentes casos de violência envolvendo a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo reacenderam o debate sobre o uso excessivo da força e, também, o despreparo das forças de segurança que deveriam proteger a população. No estado, a PM bate recordes seguidos de letalidade, e até o número de mulheres vítimas, historicamente baixo, aumentou nos últimos anos.
Madrugada de sexta-feira (10). Rua quase sem calçada. O retrovisor de uma viatura bate no braço de um homem. O que poderia ser só um descuido banal vira confronto. Os policiais recuam. Começa a discussão.
Da viatura, desce uma jovem inexperiente soldado — Yasmin Cursino Ferreira — 21 anos. Do outro lado, Thawanna da Silva Salmázio, 31 anos. Ajudante geral autônoma. Mãe de cinco filhos. Palavras atravessadas. Tensão que cresce rápido demais. Um tiro.
A versão policial é de que Thawanna teria agredido a PM, o que motivou o disparo. Testemunhas contradizem essa versão.
“A gente tem quase certeza que o que a gente viu nesse caso em Cidade Tiradentes, dificilmente a gente veria em Alphaville, por exemplo, pensando nos bairros aqui de SP. Mas sim, ela está agindo de forma muito violenta. A polícia tem usado da força letal como há muito tempo não se via. E isso não se reflete em redução de crimes, muito pelo contrário”, afirma a pesquisadora Viviane de Oliveira Cubas, do NEV-USP.
Em 2025, a Polícia Militar de São Paulo foi responsável por 808 das 834 mortes causadas por agentes do estado.
“Será que com 21 anos de idade, uma pessoa já está madura o suficiente para portar uma arma, para ser responsável pela segurança, e muitas vezes pela vida e morte de outras pessoas?”, questiona o advogado Fabiano Machado Rosa.
Exatamente sete dias depois. Também numa sexta-feira. Outra morte chamou a atenção por causa da banalidade e da violência. O entregador Douglas Renato Sheefer levou um tiro enquanto trabalhava como entregador. Ele era pai de três filhos e não tinha ficha criminal.
O subinspetor da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo Reginaldo Alves Feitosa, de 54 anos, é o suspeito de matar Douglas com um disparo que atingiu as costas do entregador, próximo ao Parque Ibirapuera, área nobre da cidade. A versão é cercada de contradições: a ocorrência foi comunicada inicialmente como acidente de trânsito. O tiro só foi descoberto quando socorristas removeram a roupa de Douglas. O agente foi preso em flagrante e solto após pagar fiança de R$ 2 mil.
A jornalista Flávia Oliveira, em um artigo no O Globo, escreveu que Thawanna morreu de São Paulo. Douglas também.
“Temos que compreender que temos um problema sistêmico de segurança pública. Vivemos, por que não dizer, uma guerra nas nossas cidades, um índice de criminalidade muito alto, uma polícia que vai à rua fazer combate todo dia. E me preocupa muito quando nós tratamos o policial e a policial como sendo o inimigo de uma guerra que não tem vencidos nem vencedores”, resume o advogado.
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