O cinema brasileiro se reuniu nesta quinta-feira (23) para a despedida do produtor, fotógrafo e cineasta Luiz Carlos Barreto, o Barretão. Nascido em Sobral, no Ceará, e radicado no Rio de Janeiro,Barreto construiu uma das trajetórias mais importantes da história do audiovisual brasileiro.
Foi por meio do olhar apurado de fotógrafo que passou a pensar o Brasil, retratando o povo brasileiro, suas contradições e sua cultura em filmes que marcaram gerações e levaram o país aos principais festivais internacionais, como Cannes, além de indicações ao Oscar.
O Palácio da Cidade, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, recebeu familiares, cineastas, artistas e representantes da cultura brasileira para o velório do produtor, quemorreu na quarta-feira (22), aos 98 anos.
Considerado um dos maiores nomes da história do cinema nacional, Barreto foilembrado por amigos e parceiros como um dos responsáveis pela consolidação da indústria cinematográfica brasileira e por transformar o cinema em um instrumento para pensar o país.
Ao lado da mãe, a produtora Lucy Barreto, e dos irmãos, o diretor Bruno Barreto recebeu o carinho de dezenas de pessoas que fizeram parte da história do cinema brasileiro.
A relação de Luiz Carlos Barreto com o cinema também se confundia com a própria história de sua família.Ao lado da esposa, a produtora Lucy Barreto, construiu uma parceria que marcou o audiovisual brasileiro, enquanto os três filhos seguiram caminhos ligados à sétima arte.
Mas, para Barretão, a família ia além dos laços de sangue. Cineastas, técnicos, atores e produtores tornavam-se parte de uma convivência construída nos sets de filmagem, nos debates sobre o país e na paixão compartilhada pelo cinema. Fazer cinema, para ele, era também uma forma de estar em família.
Aos 98 anos, Luiz Carlos Barreto deixa uma obra que ajudou a construir a identidade do cinema brasileiro e projetou o país para o mundo.Mais do que produtor, foi um dos principais articuladores de um cinema comprometido com a realidade nacionale com a valorização da cultura brasileira.
Ao longo da cerimônia de despedida, no Palácio da Cidade, cada lembrança compartilhada por familiares, amigos e parceiros de trajetória era seguida por longas palmas que ecoavam pelo salão.
Entre relatos emocionados e memórias de quem conviveu com Barretão,permaneceu a imagem de um homem que transformou o olhar da fotografia em um projeto de cinema para pensar o Brasil.
Fez da própria família um dos pilares de sua trajetória e ampliou esse conceito para toda uma geração de artistas que encontraram nele um parceiro, um mestre e um amigo. Sua obra seguirá inspirando novas gerações de realizadores e mantendo viva a convicção de que contar histórias brasileiras é também uma forma de compreender o país.
Em entrevista durante a cerimônia, Bruno Barreto relembrou a capacidade do pai de surpreender até mesmo depois da morte. Ele contou que descobriu recentemente uma curiosidade envolvendo a conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil, em 1958.
"Hoje de manhã acordei e li que o hábito de o capitão campeão da seleção brasileira levantar a taça começou por causa do meu pai. Ele era fotógrafo da revista O Cruzeiro e, como estava atrás de muitos fotógrafos, pediu ao Bellini para levantar mais a taça. A partir daí, todos os capitães passaram a repetir esse gesto", contou.
O diretor também recordou a infância cercada pelo cinema dentro de casa. Lembrou que ele e os irmãos cresceram convivendo com a cachorra Baleia, que participou de Vidas Secas, e com a primeira moviola horizontal Steenbeck instalada no Brasil, onde cineastas como Ruy Guerra e Arnaldo Jabor montaram seus filmes.
"Uma das minhas lembranças de infância é ver a tenda do circo subindo e descendo na moviola, indo para frente e para trás, na casa dos meus pais", disse.
A presidente daEmpresa Brasil de Comunicação (EBC), Antonia Pellegrino, afirmou que a despedida representa também uma celebração da vida de um brasileiro comprometido com a cultura e com o país.
"Luiz Carlos foi maior do que o cinema.Foi um grande pensador e articulador de um projeto de Brasil atravessado pela cultura.Era uma pessoa que nunca se desconectou da ideia de construir uma sociedade melhor", afirmou.
Ela lembrou que, aos 95 anos, Barretão a convidou para discutir comunicação pública quando assumiu a Diretoria de Conteúdo e Programação daEBC.
"Era alguém que acompanhava de perto o que estava sendo feito e permanecia interessado em pensar o país. É um brasileiro que precisa estar na prateleira de cima da nossa história", completou Antonia.
O diretor do Canal Brasil, André Saddy, e o produtor Marco Altberg, lembraram que Luiz Carlos Barreto sempre colocou o fortalecimento do cinema brasileiro acima dos projetos pessoais.
Os dois destacaram que um dos sonhos do produtor se concretizou com a criação do Canal Brasil, dedicado exclusivamente ao audiovisual nacional.
"O Canal Brasil nasce de um sonho do Barreto. Imaginar um canal voltado apenas para o cinema brasileiro era algo enorme para a época. Sem esse sonho, dificilmente o canal existiria", lembrou Saddy.
Para Altberg, Barretão foi um dos principais responsáveis pela consolidação do cinema brasileiro contemporâneo e deixou como legado a defesa permanente da produção nacional.
"Ele sempre sonhou grande. Era um líder, um grande amigo e nunca deixou de pensar no futuro do cinema brasileiro", disse.
A cineasta Anne Pinheiro Guimarães, que estreia nesta quinta-feira (23), em cinemas de todo o país, o longaPequenas Criaturas, lembrou que iniciou sua trajetória profissional pelas mãos de Luiz Carlos Barreto e definiu o produtor como seu "pai no cinema".
"Foi ele quem me deu meu primeiro trabalho no cinema. Eu o considero meu pai no cinema. Era um apaixonado pelo cinema brasileiro e acreditava que o Brasil precisava ser visto nas telas. Esse é um bastão que precisamos continuar carregando", afirmou.

