Pesquisa
O uso dessa metodologia para análise e coleta de dados sobre a prática sindical do Sindipetro LP é relatado em artigo com participação da Fundacentro
Para Todos Verem: Ambiente de trabalho externo da indústria petroleira. No primeiro plano, oito trabalhadores em círculo conversam. No topo do card, o título do artigo - Atuação sindical petroleira do Litoral Paulista: contradições, enfrentamentos e perspectivas para ações no campo da Saúde do Trabalhador. No canto inferior direito, a marca da Fundacentro em verde.
Imagem do card: IA - Freepik
A etnografia pode ser aplicada em pesquisas voltadas para a Saúde do Trabalhador e dar voz aos trabalhadores e suas vivências. É o que mostra o artigo “Atuação sindical petroleira do Litoral Paulista: contradições, enfrentamentos e perspectivas para ações no campo da Saúde do Trabalhador”, publicado no "Dossiê Ecologia, Sindicalismo e Direito do Trabalho", da Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano. A publicação analisa o processo de coleta de dados etnográficos sobre a prática sindical do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista (Sindipetro LP), como etapa preliminar à intervenção formativa e ao desenvolvimento de programa de atenção à saúde do trabalhador.
O estudo etnográfico e a posterior intervenção formativa, de março de 2020 a fevereiro de 2025, foram motivados pela ocorrência de casos de câncer, sem exposição direta ao benzeno, mas relacionada a outros agentes cancerígenos presentes no trabalho dos petroleiros. O fato levou o Sindipetro LP a procurar pesquisadores para o enfrentamento.
Na etapa preliminar, foram utilizados instrumentos das Ciências Sociais: observação participante, entrevistas orais e análise de documentos produzidos ou os escolhidos como balizas da atual gestão sindical. Assim foi possível compreender os modos de trabalho do sindicato a partir de seus próprios termos.
Enfrentamento e prevenção
“O acompanhamento dos (as) sindicalistas em ação, assim com as falas dos ex-sindicalistas apontam para a centralidade da reparação de danos, mesmo quando se trata de questões de saúde", afirmam os autores do artigo, Mara Takahashi (Unesp), José Marçal Jackson Filho (Fundacentro), Denise Grecco (USP), Angela Simonelli (UFPR) e Ildeberto de Almeida (Unesp).
Os Acordos Coletivos de Trabalho (ACT) têm esse foco, com destaque para a compensação financeira associada aos riscos ocupacionais presentes no sistema de produção. “Para além dos ganhos, os adicionais de insalubridade e periculosidade parecem ter um papel social de registrar a exposição de agentes perigosos e contribuir para o nexo causal individual para os trabalhadores que vierem a sofrer acidentes de trabalho ou desenvolveram doenças relacionadas ao trabalho, bem como para a solicitação de aposentadoria especial, o que acentua a contradição existente”, explicam os pesquisadores.
Alguns limites precisam ser superados. Cláusulas relativas à saúde do trabalhador nas negociações coletivas com o potencial de inibir os determinantes do processo saúde-doença devem ser fomentadas. Também é necessário olhar para “questões de organização do processo de trabalho da categoria petroleira como o baixo efetivo de trabalho, os perigos e riscos, o aumento do ritmo de trabalho, a intensidade e adensamento do trabalho, a importância de pausas e descansos restauradores, do assédio e do estresse no trabalho”. Isso traz impactos aos adoecimentos relacionados ao trabalho como câncer, doenças osteomusculares, perdas auditivas e transtornos psíquicos.
As contradições observadas, compreendidas como relacionadas aos modos de gestão e organização do trabalho hegemonicamente dominantes, podem ser propulsoras de mudança. No estudo, foi possível evidenciar modalidades de enfrentamento e de resistência e perceber possibilidades e margem de ação para atuação voltada à prevenção.
“Nova perspectiva se abre, na qual a ‘técnica’ a ser desenvolvida não depende apenas dos agentes públicos especialistas, mas de construção coletiva compartilhada que visa nova atuação e organização sindical no campo da ST”, concluem os autores.
Novas ações
Novos caminhos foram explorados em outras etapas da pesquisa, que serão relatadas no relatório da Fundacentro - Expansão da atuação sindical por meio de uma intervenção formativa no Sindipetro do Litoral Paulista. O documento está em fase de publicação e será divulgado brevemente.
A etapa de intervenção também foi tema de outro trabalho, apresentado por Mara Takahashi no I Simpósio Multidisciplinar sobre Saúde e Trabalho – I Simpsat, realizado em Teresina-PI, no início de outubro: Intervenção Formativa para Nova Atuação Sindical e Implantação do Serviço de Saúde Coletiva do Trabalhador e da Trabalhadora “Valdemar Barbosa do Amaral”.
O trabalho teve autoria de Mara Takahashi, José Marçal Jackson Filho, Angela Simonelli, Pâmela dos Santos, Fábio dos Santos, André Ramalho e Tiago Lima. O objetivo foi relatar a experiência de intervenção formativa, baseada no Laboratório de Mudança, realizada no Sindipetro LP. Essa iniciativa buscou mudar a atuação sindical em saúde, focada na reparação de danos para ações de prevenção no enfrentamento das condições de trabalho perigosas e insalubres.
O resultado foi a implantação de um novo modelo de serviço, lançado formalmente no Sindipetro LP em março de 2025, a partir de uma inovadora cultura sindical voltada para ações de precaução e prevenção sobre os determinantes do trabalho na indústria do petróleo.
Saiba mais
Leia o artigo “Atuação sindical petroleira do Litoral Paulista: contradições, enfrentamentos e perspectivas para ações no campo da Saúde do Trabalhador”.
Texto:
Cristiane Oliveira Reimberg

