“Eu tenho certeza de que conhecimento é tudo. É a base para fazer um bom trabalho, para ter um bom retorno, para você ter segurança na informação que passa e a certeza de que realmente vai ter uma efetividade e um retorno para a vítima que está ali nos esperando. Com esse treinamento, a gente vai ver uma efetividade na atuação e uma confiança a mais da mulher que vem procurar o nosso canal para poder ser auxiliada”, afirma Fernanda.
O treinamento tem impacto direto na ponta do serviço, onde o acolhimento acontece. Fernanda Santos (nome fictício para preservar a identidade da colaboradora), atendente da Central Ligue 180, declara como a capacitação é importante para quem atua na linha de frente do combate à violência contra as mulheres.
Atualização do sistema e dados do Ligue 180
Na rotina do atendimento, as operadoras lidam diariamente com a evolução das dinâmicas de abuso, incluindo a forte presença do ambiente tecnológico. “A gente recebe cada relato que é difícil até de ler. Pegamos bastante casos de violência digital, virtual. Recentemente, recebi um caso que foi apresentado hoje no treinamento: a vítima tinha medida protetiva, mas se separou do ex-companheiro, que começou a proferir ameaças contra ela através do Pix. Ela não sentia segurança de forma alguma e precisou criar outra chave, porque ele conseguiu o Pix dela e enviava as ameaças por ali. Dava para sentir o medo dela pela leitura do relato. Então, a gente, como mulher, sentia a mesma coisa que ela estava sentindo”, relata a atendente.
A qualificação integra a campanha nacional “O Digital é Nosso Lugar”, lançada pelo Ministério das Mulheres para afirmar que a internet é um espaço de cidadania, expressão e presença pública das mulheres. Com o mote “Nossa conexão é livre. Proteja. Denuncie. Ligue 180”, a campanha busca orientar sobre as regras previstas no Decreto nº 12.976/2026, que estabelece diretrizes para a proteção de mulheres na internet e o enfrentamento à violência de gênero online.
O Digital é Nosso Lugar
Mulheres em situação de violência, inclusive no ambiente digital, ou qualquer pessoa que testemunhe a agressão, podem buscar orientação e registrar denúncias canais oficiais:
O Digital é Nosso Lugar. Nossa conexão é livre. Proteja. Denuncie. Ligue 180
Ligue 180: Atendimento gratuito, confidencial e disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.
Para subsidiar o trabalho das atendentes, o Ministério estruturou ferramentas pedagógicas e normativas específicas para esta nova fase da Central. De acordo com Janara Sousa, professora, pesquisadora e chefe da Assessoria de Comunicação do Ministério das Mulheres, a preparação técnica foi minuciosa.
A advogada também destacou o papel das plataformas digitais na preservação das provas: "Na violência digital, remover o conteúdo é importante para reduzir o dano, mas isso não pode comprometer a apuração do caso. O decreto avança ao estabelecer que, diante de indícios de crime ou ato ilícito, as plataformas devem assegurar a guarda e o encaminhamento das informações necessárias à identificação da autoria e à comprovação da materialidade. Isso fortalece o trabalho das autoridades competentes e dá mais segurança ao atendimento das vítimas".
O Ministério alerta que os impactos do ambiente online repercutem diretamente na realidade, provocando adoecimento mental, danos à reputação, perda de autonomia econômica e o silenciamento de mulheres em espaços de decisão e política. Por ser de rápida propagação e difícil remoção, a violência digital frequentemente funciona como uma extensão do controle, da perseguição (stalking) e da chantagem já praticados pelos agressores no ambiente doméstico.
Treinamento
"Os crimes virtuais geram danos às vezes irreparáveis para as mulheres. É importante que o relato, as informações e as características estejam bem discriminadas, para que as vítimas consigam ter continuidade do processo sem que haja a descaracterização da violência”, alertou Almerinda.
Além da formação, o formulário de atendimento do Ligue 180 foi atualizado para detalhar o meio digital utilizado, o uso de inteligência artificial e a relação da violência online com outras agressões físicas ou psicológicas já sofridas pela vítima.
Violência real e virtual
"Esse curso é para aperfeiçoar o atendimento da Central de Atendimento Ligue 180. O canal recebe diariamente um volume expressivo de demandas e já atende vítimas de crimes em ambientes virtuais. Para dar suporte, o Ministério das Mulheres preparou uma cartilha de apoio às atendentes e um guia para as mulheres em geral. O material produzido permitirá que atendentes e usuárias consigam identificar os crimes virtuais, registrar de forma tipificada, bem como reconhecer quais crimes são classificados como virtuais", detalhou Janara.
O diagnóstico estatístico reforça a urgência da medida. Os dados históricos da Central comprovam que a violência virtual é uma realidade crescente:
A nova norma entra em vigor no prazo de 60 dias e define obrigações para as plataformas digitais, incluindo a remoção rápida de conteúdo íntimo não autorizado, o combate a ataques coordenados e o enfrentamento ao uso de inteligência artificial para a manipulação de imagens falsas (deepfakes). Além disso, todas as plataformas deverão disponibilizar o canal do Ligue 180 como opção de denúncia em locais de fácil acesso.
"O digital também é nosso lugar. As mulheres têm o direito de ocupar a internet com segurança, liberdade e dignidade. A violência digital não é brincadeira, não é opinião e não é um problema menor. Ela produz medo, adoecimento, silenciamento e exclusão. Por isso, o Estado brasileiro está fortalecendo a prevenção, a responsabilização, os canais de acolhimento e o dever de cuidado das plataformas”, afirmou a ministra das Mulheres, Márcia Lopes.
Serviço
As profissionais serão capacitadas para orientar sobre os passos fundamentais após a agressão, como a preservação correta de evidências. A advogada e pesquisadora de crimes digitais, Almerinda Vasconcelos, ressalta o impacto jurídico dessa preparação e as mudanças trazidas pelo novo decreto.
Mapeamento
O objetivo é aprimorar a capacidade da Central para reconhecer situações de violência em ambiente virtual, orientar vítimas e denunciantes de forma humanizada, registrar melhor as ocorrências e produzir dados qualificados para subsidiar as políticas públicas de prevenção.
A partir desta terça-feira (9), o Ligue 180 inicia uma nova etapa de qualificação de atendentes para fortalecer o acolhimento, a orientação e o encaminhamento de casos de violência digital contra as mulheres. A iniciativa, realizada em parceria entre o Ministério das Mulheres e a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), ocorre no âmbito do Pacto Brasil contra o Feminicídio.
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