Um levantamento do Instituto Nacional de Câncer (Inca) revela uma desigualdade racial no enfrentamento ao câncer de mama no Brasil: mulheres negras têm taxa de mortalidade 3,8 vezes maior que a de mulheres brancas. O estudo aponta diferenças no acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento.
A esteticista Joice do Nascimento descobriu um câncer de mama quando tinha apenas 23 anos. O tratamento incluiu a retirada de uma das mamas. Hoje, ela está curada.
"Minha mama sangrava muito, dias consecutivos, então aquilo não era normal, sangramento na mama, o bico invertia. Eu fiquei preocupada, comecei a pesquisar na internet, porque a mulher é curiosa. E, a partir dessas pesquisas, eu só não fiquei na pesquisa, eu fui fazer também o preventivo”, lembra ela.
Um estudo do Instituto Nacional de Câncer, o Inca, mostra que as formas agressivas de câncer de mama são mais comuns entre mulheres negras. O caso do triplo negativo, por exemplo, forma grave da doença, é duas vezes mais frequente nesse grupo. A pesquisa foi divulgada nesta terça-feira (27) em um evento na sede do Inca, no Rio de Janeiro.
“Essas mulheres negras têm muita dificuldade de acessar esses serviços, conciliando com trabalho, cuidado com a família, dificuldade de acessar o serviço de transporte. Então, essas mulheres exigem muito cuidado. E as desigualdades comprometem altamente as possibilidades dessas mulheres negras terem mais qualidade de vida, terem acesso ao tratamento e podem até custar vidas”, destaca Natália Ribeiro, líder do Projeto Saúde das Mulheres Negras.
As mulheres negras também costumam demorar mais para receber o diagnóstico: 43,1% em estágios 3 a 4 contra 35,5% das mulheres brancas nos mesmos estágios. Além disso, a sobrevida das mulheres negras é menor em relação às brancas: 7,5 anos contra 8,4 anos.
"As mulheres negras têm uma mortalidade maior em relação à mortalidade das mulheres brancas. E isso pode estar relacionado, sim, a alguns subtipos mais agressivos, mas a gente não pode excluir a questão do acesso ao diagnóstico, acesso ao tratamento, ao diagnóstico precoce, que faz muita diferença na sobrevida e nas taxas de cura dessas mulheres”, afirma Renata Maciel, chefe da Divisão de Detecção Precoce do Inca.
Outro problema apontado pelo levantamento é a falta de dados no Brasil com esse recorte racial.
"Os dados hoje nos configuram a necessidade de a gente ter um olhar específico para essa população, com o desenvolvimento de políticas específicas para esse segmento, buscando equidade e melhor desempenho e melhores resultados nesses indicadores”, destaca Roberto de Almeida Gil, diretor-geral do Inca.
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