Para muita gente, as apostas esportivas parecem mais seguras do que os jogos de azar tradicionais. Mas o que começa como paixão pelo futebol pode terminar em dívidas, desespero e perdas que atingem toda a família. É o que mostra a segunda reportagem da TV Ceará, emissora da rede.
Ele não entrou nesse universo pelo "Tigrinho", entrou pelo futebol. Gostava de estatísticas, conhecia os times, decorava escalações e acreditava que informação e experiência poderiam garantir alguma vantagem.
Apostador anônimo: "Quando eu conheci o jogo, eu tinha dois carros — uma caminhonete e um carro menor — e duas motos, uma de corrida e uma normal. Um dia eu fui trabalhar na caminhonete; no outro dia, fui trabalhar de bicicleta, porque o homem para quem vendi o carro ficou com pena de mim e me deu a bicicleta dele."
O objetivo já não era acertar o resultado, mas recuperar o dinheiro perdido.
Apostador anônimo: "Quando eu começava a jogar com o meu dinheiro e perdia, na minha cabeça, eu tinha que recuperar. Então, como eu não tinha mais, acabava buscando fora, com agiota ou com colegas passando o cartão de crédito."
A experiência desse homem faz parte de um problema que ganhou escala nacional.
Maurício Filizola (presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas): "Hoje, nós temos praticamente um quarto das famílias brasileiras apostando nesse tipo de jogo, o que é muito comum observarmos até nos meios televisivos, pela divulgação que tem sido feita. Se olharmos para o setor produtivo de uma forma geral, o impacto é muito danoso."
O aumento dos casos de dependência, de endividamento e de publicidade enganosa fez o governo endurecer todas as regras. A partir de agora, todo anúncio precisa exibir uma advertência clara: "Apostar pode causar dependência", "Apostar faz você perder dinheiro", ou "Aposta não é investimento". O alerta deve ocupar pelo menos 10% da propaganda. Também ficam proibidos os conteúdos que induzam o consumidor ao erro, os palpites incentivados por especialistas e a divulgação de plataformas que não têm autorização para funcionar aqui no país.
Luiz Eduardo Mendes (coordenador do CyberGAECO): "Só no ano passado, em 2025, foram desativados mais de 25 mil sites ilegais de apostas."
Outra medida atinge diretamente quem precisa renegociar dívidas. O novo "Desenrola Brasil" oferece condições para a recuperação financeira das famílias, mas estabelece uma contrapartida: quem aderir ao programa terá o CPF bloqueado nas plataformas autorizadas de apostas por 12 meses.
A reação também partiu da sociedade. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Marieta Severo estão entre os artistas que emprestaram a própria voz ao movimento "Block no Tigrinho".
Marcos Falcão (doutor em Economia): "Nós estamos com aumento de endividamento e de inadimplência. Isso pode reduzir a atividade econômica. Se a atividade econômica cai, porque as pessoas deixam de consumir determinados bens e serviços, a arrecadação tributária do governo vai se reduzir. Com a arrecadação tributária se reduzindo, o governo também vai reduzir os seus investimentos, seja em infraestrutura, seja em segurança pública."
Uma promessa de dinheiro fácil pode ser a porta de entrada para um prejuízo difícil de calcular.
Apostador anônimo: "Quem tem esse problema com jogatina tem uma tatuagem na alma. Não precisa ver um anúncio na televisão para lembrar que tem problema com o jogo."
Depois de tantas perdas, eles descobriram que a vida não muda com um palpite. Muda um dia de cada vez.
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