Nos últimos dez anos, entre 2016 e 2025, 231 operações policiais foram realizadas apenas no Complexo da Maré, que reúne 15 favelas, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Como resultado, crianças e adolescentes da região ficaram 163 dias sem aula. Os números estão no boletim "Direito à Segurança Pública na Maré", divulgado pela organização da sociedade civil Redes da Maré.
As operações policiais também deixaram 160 mortos e em apenas em 16 desses casos foi feita perícia no local. O impacto na rotina da população é dramático. As escolas da região ficaram fechadas por dias equivalentes a um ano letivo inteiro. Para a organização Redes da Maré, a violação de direitos não pode mais ser considerada como efeito colateral da política de segurança pública.
“Há um padrão de violação que tem uma continuidade, é recorrente. A gente conseguiu hoje incidir numa política federal que é o fórum pelos 200 dias letivos. Um fórum que garanta que toda criança em idade escolar, criança e adolescente, tenha os 200 dias letivos. É para pensar políticas de reparação e não repetição. Então, como crianças de favela, populações de favela e periferia devem ser reparadas em médio e longo prazo pelos efeitos dos impactos da violência armada e a violência de Estado nesses territórios”, defende Tainá Alvarenga, coordenadora de Direito à Segurança Pública do Redes da Maré.
Ao todo, foram mais de 1.500 ocorrências de violências registradas durante os confrontos armados, que incluem violência física, psicológica e tortura. Há ainda registros de invasões a mais de 300 casas e estabelecimentos comerciais, além de patrimônios danificados e pertences roubados.
Ao analisar o período de 2016 a 2025, o boletim reforça a persistência de um modelo de segurança pública repressivo e letal, que deve passar por mudanças estruturais não só no Rio de Janeiro, mas em todo o país.
“A partir do trabalho territorializado da Rede da Maré de acompanhamento in loco dessas dinâmicas, a gente consegue, a partir dessa experiência, demonstrar com dados e movimentos outros de que isso se capilariza por todas as favelas e espaços de periferia do estado do Rio de Janeiro, incluindo também outras partes do Brasil”, afirma Tainá.
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