Ao longo da tramitação do processo, consolidou-se o entendimento de que o Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado constitui referência cultural fundamental dos povos do Cerrado, articulando conhecimentos tradicionais, sistemas próprios de cuidado, manejo sustentável da biodiversidade, espiritualidade, transmissão oral e proteção territorial.
Outro importante registro realizado no segundo dia da 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural foi o dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte, no Ceará.
“O registro desse bem possui uma dimensão profundamente reparatória. Trata-se de afirmar que os conhecimentos tradicionais produzidos pelos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais possuem valor, legitimidade, ciência, ética e espiritualidade. Trata-se de reconhecer que esses saberes sustentaram e continuam sustentando a vida de milhares de comunidades em todo o Cerrado brasileiro”, concluiu Vercilene.
“Contemporâneo de figuras públicas emblemáticas da sua época, a exemplo de Antônio Conselheiro (1830-1897), Lampião (1898-1938), Maria Bonita (1910-1938), Beata Maria de Araújo (1862–1914), Beata Mocinha (1864-1944), dentre outros, Padre Cícero é a encarnação de um Brasil extremamente marcado por contradições, ambiguidades e paradoxos. A sua verve messiânica e salvacionista é o elemento norteador de uma certa imagem do Brasil que se reflete na fé do seu povo e na capacidade desse mesmo povo em sacralizar, beatificar e santificar pessoas, lugares e memórias”, afirmou o conselheiro.
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Uma das mais importantes expressões dos saberes de povos e comunidades tradicionais da região central do Brasil, o Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado, foi registrada nesta quarta-feira (10) como Patrimônio Cultural do Brasil. A ação ocorreu durante o segundo dia da 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, promovida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Na reunião também foi aprovado o registro dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte (CE) como Patrimônio Cultural do país.
Demais registros
“Esses conhecimentos foram sendo transmitidos entre gerações por meio da oralidade, da convivência comunitária, da observação da natureza e das práticas cotidianas realizadas nos quintais, roçados, matas e caminhos do território”, observa a conselheira relatora do processo, Vercilene Francisco Dias.
“A memória do Padre Cícero Romão, marcada pela dedicação plena ao sacerdócio popular, com todos os seus feitos e virtudes, mas, também, de ambiguidades, contradições e paradoxos, nos chega até os dias de hoje através da ação coletiva mobilizada pela fé do povo brasileiro. Essa fé é renovada e retroalimentada todos os anos, a partir das práticas romeiras rumo aos Lugares Sagrados do Juazeiro do Norte”, observou o conselheiro e relator do parecer, André Luis Nascimento.
A relatora, que é também uma representante da comunidade quilombola Kalunga, localizada no norte de Goiás, expressou a sua comoção relativa ao processo apreciado pelo Conselho. “Apresentar parecer sobre esse Ofício é, para mim, um momento de profunda emoção, responsabilidade e pertencimento. Falo não apenas na condição de relatora, mas também como mulher quilombola Kalunga, filha, neta, bisneta e tetraneta de raizeiras e raizeiros, parteiras e benzedeiras do Cerrado goiano. Minha trajetória pessoal, comunitária e ancestral está profundamente entrelaçada com este ofício, com os saberes das plantas, com as rezas, os cuidados, os quintais e as caminhadas pelo Cerrado”, disse.
A partir de um evento interpretado como um milagre realizado pelo Padre Cícero Romão Batista, é sinalizado o marco de uma trajetória religiosa que atrai constantemente para Juazeiro do Norte uma série de romeiros de diversas localidades. A ação coletiva desses romeiros foi a base para a escolha de lugares que mobilizam o processo de registro em questão: a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Socorro, a Casa dos Milagres Padre Cícero, a Casa Museu Padre Cícero, o Santuário dos Franciscanos, o Rio Salgadinho, a Ladeira do Horto e o Complexo do Horto.
Fé, memória e devoção
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Um sistema ancestral de cuidado, cura, proteção e transmissão de conhecimentos, construído ao longo de gerações por povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, comunidades rurais e demais coletivos tradicionais do bioma Cerrado. Esta é uma definição do Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado, que está diretamente relacionado às práticas de manejo sustentável de plantas medicinais, aos modos próprios de produzir saúde e às relações espirituais e territoriais construídas com o Cerrado.
No primeiro dia da 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, nesta terça-feira (9) foram aprovados os registros do Palacete Celina Guinle e Linneo de Paula Machado e seus jardins (RJ) e do Teatro Municipal de Ouro Preto - antiga Casa da Ópera de Vila Rica (MG ).
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